O humanismo fortalece a psiquiatria

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Um dos temas que mais me fascina é o da psiquiatria nas suas dimensões terapêuticas. Portanto, as internações psiquiátricas e as unidades de internação são matérias que sempre povoaram minha curiosidade. Não foi a toa que as minhas titulações acadêmicas tiveram essa temática como base das pesquisas.

 

Nesse contexto, há uma reflexão a ser feita: o que fortalece a psiquiatria?

 

Por ser um crítico dos manicômios e das instituições asilares, eu, por vezes, sou apelidado de “antipsiquiatra” por muitos dos meus críticos. A forma agressiva e ideológica que sou atacado evidencia, de fato, os tempos atuais cujo ódio e conservadorismo dão as cartas. Muitos desses ferrenhos críticos acreditam que o modelo hospitalar é o mais adequado para a proteção do doente mental, contudo eles esquecem que a epidemiologia de quaisquer doenças mostra que as internações devem ser um evento final. A internação deve acontecer nos casos específicos, sobretudo se os tratamentos anteriores falharam na perspectiva de estabilizar o quadro. É assim na medicina, pelo menos assim deve ser.

 

Não se abre um espaço de análise para o entendimento de que o doente mental, necessariamente, precisa estar na comunidade, pois, somente assim, ele terá recursos para crescer nas suas construções psicológicas e humanas. Os meus críticos não entenderam que eles, sim, são os responsáveis pelo empobrecimento da psiquiatria em todos os aspectos. A psiquiatria permite uma relação da medicina com basicamente todas as áreas humanas e médicas. A psiquiatria é humanística na sua essência. É por isso e para isso que ela existe. Qualquer postura que cause ferimento nisso enfraquece a própria psiquiatria. Desse modo, a “antipsiquiatria” nada mais é do que esse agir obtuso e hierárquico, caracterizado pela defesa dos macro-hospitais e das internações sem critérios.

 

Acredito que toda política pública precisa ser reavaliada. Isso é fato e, devido o dinamismo das forças sociais, a reavaliação e os devidos ajustes são muito bem vindos. Isso deve, portanto, acontecer com as Políticas de Saúde Mental. No entanto, usar de lacunas do sistema para defender hospitais psiquiátricos manicomiais e seus gestores é a representação plena do desrespeito à própria psiquiatria. Usar desse discurso preconceituoso para desqualificar uma rede de atenção psicossocial é perverso e gera muitos questionamentos éticos e científicos.

 

Os manicômios e os asilos devem ser uma realidade do passado. Eles não devem ser protegidos com discursos individuais ou institucionais. Quem entrou num desses macro-hospitais entende o que estou dizendo. O paciente psiquiátrico, independente do seu diagnóstico, deve estar na sua comunidade, pois o humanismo e a psiquiatria sempre estiveram de mãos dadas a despeito daqueles que não percebem isso.

 

Régis Eric Maia Barros

Médico Psiquiatra

Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP – USP