O apedrejamento moderno

No passado, os leprosos eram apedrejados, os tuberculosos eram isolados em instituições distantes e os “loucos” trancafiados nos manicômios. A sociedade, usando de um falso argumento higienista, acabava por ser eugênica. Quem feria a ordem dos costumes e deixava exposto alguma mazela humana não era bem visto. Portanto, os pedintes, os alcoólatras, os lázaros e os loucos recebiam o crivo severo da exclusão.

Sempre foi assim e, desse jeito, continua sendo. Os séculos passaram, mas a concepção social da humanidade permanece inalterada. O discurso é semelhante ao do passado. A idéia exposta era a de cuidar de todos os mazelados. Essa era a fala a qual se pautava no falso acolhimento. Como cuidar de alguém isolando-o e sem mudar as condições de vida que causaram aquele problema? Nesses exemplos, não havia uma proposta de ofertar dignidade àqueles que não possuíam. Os desassistidos eram jogados em espaços insalubres. Ao final, para sempre eram esquecidos. Claro que o esquecimento se dava por algo simplório: quem intercederia por eles? Ao isolá-los, as cidades e as ruas ficaram limpas. A falácia inicial do cuidado e do tratamento não se sustentava até por que eles, os excluídos e os esquecidos, nunca, de fato, foram cuidados nem tratados. Desse modo, as “internações”, como se fossem uma sentença, eram quase que para sempre. Ressalto que essa postura de excluir era fomentada, defendida e executada pelo próprio Estado. Ele, tomado pelo poder, definia o que era o “certo” sem o mínimo cuidado ético e humano.

A lógica se repete e a humanidade cria seus espirais recorrentes de comportamentos nefastos. Agora, a bola da vez são as cracolândias e a idéia do Estado de internar compulsoriamente em massa. A concepção de que ele pode recolher das ruas quaisquer pessoas que ele próprio julgue como doente. Por mais que esse Estado diga que a internação será julgada por um comitê de experts, ele replica o movimento social higienista o qual, se não for freado e acontecer sem crivos, alcançará a eugenia.

Esse é o grande problema. Interna-se, compulsoriamente, o “craqueiro” e depois o que será feito? Ele ficará semanas ou meses sem usar drogas e depois? A vida continua! A mesma vida doída e sofrida que o motivou a buscar o crack. Entendo que a internação é um instrumento necessário em muitos casos, contudo, nesses moldes, não servirá de muita coisa, visto que o Estado mostra o seu poder e não motiva ninguém a mudar de comportamento. Tratamento para dependência de substâncias é assim: ajudar e acompanhar na mudança de comportamento. Não se motiva com tropa de choque e demolições.

Sem dúvidas, a problemática da dependência de todas as drogas, sobretudo o crack, não pode ser esquecida. É grave e a sociedade não sabe o que fazer, porém a história da humanidade ensina algumas coisas e mostra o que não deve ser feito. Esse jeito, encontrado pelo gestor da cidade de São Paulo, não é o melhor pelo menos sob a minha análise social, filosófica e científica.

Por fim, uma ressalva se faz necessária – a grande proporção da sociedade, de profissionais de saúde e da população apoiando essa conduta. Eu fiquei, aqui, pensando se eles seriam capazes de apedrejar os “craqueiros” da mesma forma que os leprosos foram apedrejados no passado…

Régis Eric Maia Barros