Montesquieu e a corrupção

Montesquieu

Eis que fui ler alguns trechos da obra Espírito das Leis do filósofo moderno Montesquieu e percebi muita atualidade na sua crítica à corrupção.

Para ele, o conceito de corrupção transcende ao que usamos hoje (desvio de dinheiro e negociatas políticas). A sua crítica à corrupção alcança o prisma do que ela faz com a virtude cívica. Em outras palavras, a partir dela, o olhar coletivo e a sustentação política se dissolvem por completo. Ela promove a insegurança e a falta de liberdade. Portanto, o bem comum e social deixa de existir para que os interesses particulares prevaleçam.

Conforme ele destacou, o poder é pernicioso e o ser humano, sem os controles da lei, usará do poder para si. O freio só ocorrerá se o “poder frear o poder”. Sem isso, o “carro do poder” poderá ficar desorganizado e desgovernado. Nesse contexto, como foi defendido na sua República, Montesquieu prova que segurança, moderação e liberdade estarão de mãos dadas.

A paixão daquele que exerce o poder é um perigo, pois, sem a introjeção da virtude cívica, o desejo individual e particular sobrepõe-se ao público. Assim, ele destaca: “quando só as paixões movem o poder, esse não possui limites, e o homem que o possui é tentado a abusar dele“.

Quantos abusadores existem? Sejam eles presidentes de associações pequenas de bairros até governantes poderosos? Certamente, nós teremos dificuldades de contabilizá-los. É aqui que nasce, para o autor, a corrupção. Contudo, eu friso que, para ele, o corromper é além do “roubar”, pois, ao corromper, destrói-se o bem público e a sociedade.

Sobre corrupção, faço uma reprodução da análise crítica de Ribeiro (2001) sobre essa perspectiva:

Pensar o mau político como corrupto e, portanto, como ladrão simplifica demais as coisas. É sinal de que não se entende o que é a vida em sociedade. O corrupto não furta apenas: ao desviar dinheiro, ele mata gente. Mais que isso, ele elimina a confiança de um no outro, que talvez seja o maior bem público. A indignação hoje tão difundida com a corrupção, no Brasil, tem esse vício enorme: reduzindo tudo a roubo (do “nosso dinheiro”)”.

Enfim, o corrupto é muito mais que um ladrão! Muito mesmo…

Régis Eric Maia Barros