Mensagens na queda do prédio

Quem não leu a obra “Sapiens” de Yuval Noah Harari, deve fazê-lo. Ele mostra como nós somos. Ele prova do que somos capazes. Ele descreve o nosso funcionamento. Se fizermos um recorte fenomenológico da queda recente do prédio em São Paulo, encontraremos a tese do autor de Sapiens bem manifesta.

Um prédio abandonado e esquecido pela União. Um salvo conduto a tudo com uma permissividade do Estado promovida pelo abandono. Tudo isso em meio a agitação de uma das maiores metrópoles da América Latina.

Daí, encontramos outro achado – uma quantidade cada vez maior de pessoas sem assistência. Isso é um fato do Brasil atual. Novamente, um crescente cada vez maior de miseráveis e vulneráveis. E o Estado e a sociedade têm seus olhos cegos e enviesados a tal realidade. É claro que, numa condição dessas, o referido prédio se torna um resort. Antes morar num teto do que na rua. Antes viver nele do que no relento. Pouco importa se não há água, energia elétrica, higiene e cobrança de IPTU ou se é perigoso. E daí? Ainda, sim, é melhor do que lá fora. O que se deseja mesmo é ter uma morada.

Dentro desse caos, a verdade dói e desnuda. São as provas históricas de Harari. Contra elas, não há argumentos. Portanto, as pessoas estão lá. Há tempos elas moram nesse espaço irregular e inadequado. Todos sabiam disso, visto que, isso acontecia sem maquiagem. Não precisava ser engenheiro para avaliar e ponderar sobre os riscos. Não precisava ser da área de saúde para perceber a inadequação sanitária. Para piorar, há relatos de que eles pagavam uma espécie de aluguel. Como se paga aluguel num prédio que não é particular? Ou seja, há quem lucra com isso. Para piorar, há também descrições de que os supostos “locadores” eram do próprio movimento social daqueles desfavorecidos “locatários”. Que maluquice! Lembrei-me, novamente, de Harari quando ele descreve como o Homo sapiens aniquilou o homem deNeandertal. Aquele que tem um poder, justo ou injusto, prevalecerá.

Agora, depois do prédio cair, o Estado vem ao local. Os governantes visitam os sobreviventes e falam que “darão toda a assistência necessária”. Hipócritas! Perversos! Não estavam nem aí para aquelas pessoas e continuarão a fazer o mesmo. Aos sobreviventes, restarão ou viver na rua ou procurar outra edificação desabrigada. Caberão a eles também pagar o “aluguel” desse espaço para algum aproveitador. Nesse outro espaço, existirão os mesmos riscos do anterior.

Régis Eric Maia Barros