Maquiavel nos dia de hoje

o principe

Alguns buscam apontar maldade nos conteúdos de Maquiavel. A sua célebre máxima, que imortalizou seu pensamento (“os fins justificam os meios”), é atacada com furor, sobretudo quando tratamos dos direitos fundamentais e os direitos humanos. Inclusive, o adjetivo “maquiavélico” é utilizado com freqüência quando desejamos apontar aqueles com comportamentos pouco amistosos.

De fato, eu não uso os princípios de Maquiavel no meu dia a dia nem os propago por aí. Sua construção teórica, também, criou um problema ético, pois, ao definir que o “Príncipe” precisará fazer de tudo ao seu alcance para manter o poder e o comando, ele disse que quase tudo era aceitável.

Contudo, é preciso uma ressalva: Maquiavel, em termos políticos, se encaixou ao seu período histórico do humanismo iniciante. Nesta época, era possível observar o caos no poder político o qual acontecia em parte pela falta de força do monarca e pelo resquício de força teológica da igreja. Então, um soberano forte romperia com o olhar medieval e permitiria uma avançar mesmo que “cabeças rolassem”.

O mais curioso para mim, ao ler Maquiavel, foi perceber que ele era um magnífico observador das relações humanas e da forma como o homem se colocava frente ao outro homem e a sua espécie. Minha tese parte da percepção descrita por Maquiavel de que o respeito é maior e mais permanente quando proveniente do medo e da tirania do que da piedade do soberano bondoso.

Olhem isso! Para Maquiavel, o homem não é confiável, portanto aquele que você teve piedade e ajudou poderá, no momento apropriado, te apunhalar pelas costas. Isso aconteceria assim que o poder do “piedoso” se dissipasse.

Pois bem, vez por outra, todos nós somos testemunhas dessa triste descrição de Maquiavel. Sou sabedor que não só existem essas formas de se relacionar, porém as apunhaladas daqueles que receberam sua piedade acontecem eventualmente.

Exemplifico o seu pensar com um trecho específico do capítulo XVII de O Príncipe, intitulado “Da crueldade e da piedade e se é melhor ser amado do que temido ou vice-versa”. Assim, Maquiavel escreveu:

“Surge, aqui, uma questão: “Se para o príncipe é melhor ser amado ou ser temido, ou vice-versa”. O certo é que o melhor seria ambas as coisas. Mas é difícil juntá-las. Assim, entre uma e outra, é muito mais seguro ser temido que amado. Isto porque os homens são, geralmente, ingratos, volúveis, simuladores, covardes e gananciosos e enquanto recebem favores de quem está no poder lhe oferecem a vida, os filhos, o sangue e os bens, mas quando a adversidade se avizinha, desaparecem. E o príncipe, que acreditou neles e não se preparou para enfrentar o infortúnio, está arruinado, porque os que se tornam amigos do governo em busca de vantagens e não por grandeza e nobreza d’alma são interesseiros e fogem na hora incerta. E os homens têm mais facilidade em trair os que se fazem amar do que os que se fazem temer. O amor cria um vínculo de gratidão que se rompe facilmente, porque o homem é de mau caráter, enquanto o temor é seguro pelo liame do receio do castigo, que traz o homem submetido”

Faço um grifo de destaque:

“… Isto porque os homens são, geralmente, ingratos, volúveis, simuladores, covardes e gananciosos e enquanto recebem favores de quem está no poder lhe oferecem a vida, os filhos, o sangue e os bens, mas quando a adversidade se avizinha, desaparecem…”

Que trecho forte e que merece reflexão. Termino fazendo um questionamento: algumas percepções de Maquiavel, realizadas no século XIV e XV, podem ser usadas para análises das relações do século XXI?

Régis Eric Maia Barros