Maconha medicinal

maconha medicinal paciente

Não é de hoje que o obscurantismo cega parte da sociedade. Movido pelas ondas conservadoras, a fala do medo vai tomando conta e fazendo estrago. Com a maconha, não é diferente. O mundo vai revendo sua forma de entender as potencialidades terapêuticas da maconha, mas, no Brasil, legiões de reacionários cravam suas falsas verdades preconceituosas nesse assunto.

Por mais que os retrógrados digam que não, alcaloides da maconha têm, sim, potenciais de tratamento para várias doenças. Defender o contrário representa nada mais e nada menos um ultraconservadorismo burro e inaceitável.

Pois bem, há medicamentos manufaturados, produzidos a partir da maconha, que são utilizados com sucesso em várias condições de saúde as quais, diga-se de passagem, não respondiam aos medicamentos alopáticos convencionais. Isso é um alívio e um regozijo, por exemplo, para as mães de crianças que apresentam incontáveis convulsões ao dia, para pacientes com dores insuportáveis, para pacientes com câncer e por aí vai. São diversos os exemplos de uso terapêutico da maconha.

No entanto, para que esse uso fosse efetivado, os familiares e os pacientes precisavam, anteriormente, executar uma via crucis para vencer o Estado Brasileiro e a sociedade. Por vezes, até que essa vitória fosse alcançada, muitos já tinham sucumbido pelos sintomas das suas doenças.

Atualmente, o Estado, através de sua agência reguladora – ANVISA, já reconhece e aceita a importação dos medicamentos a base dos alcaloides da maconha. Alguns critérios precisam ser preenchidos, mas, de alguma forma, houve avanço, visto que, o Estado aceita essa importação. Todavia, nem tudo é festa! O custo, por mês, desse medicamento é de aproximadamente R$ 2000. Portanto, uma realidade bem distante da grande maioria da população brasileira e, logicamente, se a dose padrão diária for maior, o custo também será. Desse modo, estamos diante de um fake cuja mentira, simplesmente, impede os doentes e seus familiares de terem qualidade de vida.

Eis que muitos desses pacientes e familiares perceberam que, ao extrair o óleo artesanal da própria planta cultivada em casa por eles, o resultado também era bem efetivo. Ou seja, esse óleo artesanal conseguia melhorar, sobremaneira, os sintomas e o infortúnio causado pelas doenças. Isso não foi uma mera impressão empírica. Os médicos, que assistem esses pacientes, perceberam e atestaram isso. Consequentemente, eles adentraram na justiça para ter o direito de plantar maconha em casa para esse fim. Portanto, inúmeros salvos condutos já existem no Brasil a fim de garantir esse direito. Outros, certamente, hão de acontecer. Na verdade, como o Legislativo vinha se acovardando, o Judiciário passou a legislar com suas jurisprudências. Esperamos que o Congresso Nacional tenha a sensibilidade e a responsabilidade de analisar essa matéria e que não se esquive de forma medíocre.

Não há possibilidade de entender alguém que se coloque contrário ao uso da maconha medicinal nesses termos. Ao invés de questionar tal processo de forma obscurantista, os críticos deveriam era aplaudir tais familiares e os pacientes. A despeito do Estado e desses próprios críticos, os pacientes e seus familiares lutaram, simplesmente, para garantir o conforto e a qualidade de vida de quem padece dessas lancinantes dores físicas e emocionais causadas por doenças refratárias.

Entendo que não apoiar o uso do óleo artesanal da maconha representa alguma perversidade que tenta se esconder com discursos científicos de roupagem arrogante que destoam da realidade. Se a ciência não se alinhar ao humanismo e as necessidades reais das pessoas, ela não serve, absolutamente, para nada e poderá, inclusive, ser um instrumento de controle e de domínio.

Qual o equívoco ao se usar o óleo artesanal da maconha para resolver males cruéis e refratários que não respondem aos tratamentos convencionais? Certamente, quem se coloca contrário a isso, talvez, não suportasse um dia sequer da angústia daqueles que padecem dessas dores e que não têm outros recursos terapêuticos.

Por fim, aos meus colegas médicos e cientistas que usam de um discurso concreto e empobrecido na análise dessas questões, peço que entendam os fatos e que olhem os seus amados. Eles hão de existir. Para protegê-los, mesmo sem te conhecer, sei que você usaria de tudo disponível nessa vida para esse fim.

Portanto, sejamos razoáveis e coerentes. Pensemos a respeito de forma menos preconceituosa e rígida. Podemos e devemos ser vanguarda nessa temática. O mundo precisa disso.

Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra