It makes me wonder…

starway to heaven

Uma nova perícia. Um dia de trabalho comum. Outra tarde que, teoricamente, seria igual. Se o periciando, por algum motivo não pode se deslocar ao setor de perícia, onde eu trabalho, nós vamos a sua residência. Então, esse era mais um caso em que isso se enquadrava.

Lendo os autos processuais, vejo os relatórios médicos. Todos descreviam como diagnóstico a seguinte codificação de doença: F20.5 (esquizofrenia residual). Enfim, uma longa história de psicose com perdas associadas à evolução longitudinal e crônica da doença. Pela juntada de documentos, o pedido fazia sentido e havia, sim, verossimilhança das alegações para determinação do podido de tutela antecipada.

Entendo que toda mente, que é percebida pelos olhos da medicina como uma mente bem doente, tenha, em si, muita coisa boa e saudável. Eis a importância de que o tratamento desses pacientes com tais quadros trabalhe isso e evoque tais possibilidades. Esse pequeno relato, que faço agora, me fez confirmar isso.

Uma casa simples. Família humilde. O periciando era filho único. Seus pais, já idosos, estavam em casa e me esperavam para a perícia. Ele, o periciando, estava no seu quarto. Ao fundo, vindo desse quarto, podíamos escutar um som agradável. Seus pais me mostraram o histórico médico do periciando. Sua primeira crise psicótica acontecera quando ele estava na universidade. De lá para cá, foram várias crises. Uma evolução clínica com perdas e prejuízos funcionais.

Fui ao seu quarto e me apresentei explicando o motivo da minha visita. Ele estava assistindo alguma coisa na sua TV. Ele pediu para que eu aguardasse e fizesse silêncio. Ele apontou para uma cadeira fazendo menção para que eu sentasse. Na TV, iniciou o clipe de Stairway To Heaven (Led Zeppelin) o qual eu, também, admiro em demasia. Seus pais, já presentes no quarto, informaram que seu filho é um apaixonado por rock e que aquela composição era a sua favorita.

A história e as provas nos autos facilitaram a perícia em função do diagnóstico, evolução da doença e perdas. Aproveitei minha visita para conversar com ele (parte requerida) sobre rock e bandas. Mostrei alguns vídeos e clipes de rock no meu celular. Ele me mostrou alguns dos seus discos e CDs. Como dito coloquialmente, trocamos figurinhas sobre um gosto em comum – “rock and roll”. Nesse momento, não havia sintomas, mas sim algo prazeroso compartilhado.

Fiquei pensando sobre qual seria o caminho mais terapêutico para aquele paciente. Sem dúvidas, se não houver música no seu tratamento psiquiátrico, nada melhorará e a parte sadia da sua mente tenderá a atrofiar.

Psiquiatria é isso – medicina que, obrigatoriamente, deve ir além da própria medicina.

“and it’s whispered that soon, If we all call the tune
Then the piper will lead us to reason
And a new day will dawn
For those who stand long
And the forests will echo with laughter”

Régis Eric Maia Barros