Gênero, ética e esporte

ética no esporte

A discussão sobre a inclusão de mulheres trans em atividades esportivas é uma questão filosófica e ética bem atual. Nesse contexto, de maneira conjugada, aparecem dois pontos: o avanço social na aceitação das identidades de gênero e a perspectiva ética no esporte.

Inicio esse artigo informando que sou um defensor público e ferrenho na aceitação plena dos homens e mulheres trans na sociedade. Por sinal, sou psiquiatra e perito de um tribunal federal e faço perícias sistemáticas em homens e mulheres trans. Conforme as normas vigentes, essas perícias são necessárias para a legitimação da mudança de registro civil e de sexo. Invariavelmente, é possível perceber, em todas as histórias, um componente de luta e de busca pela felicidade. A força demonstrada, ao assumir socialmente a nova identidade de gênero, é algo difícil de mensurar. Portanto, eu confesso que admiro essa conquista pleiteada pelos homens e mulheres trans.

No entanto, quando falamos de esporte e competições esportivas, outra reflexão nasce trazendo a necessidade de uma análise cuidadosa. Ou seja, tais atividades demandam de um desempenho igualitário e justo em todo o processo de competir. Esse fundamento é o princípio maior no controle do doping. Portanto, quaisquer elementos, que tragam diferenças, construídas além do treinamento e da técnica, não podem ser esquecidos. Desse modo, a participação da mulher trans, em competições femininas, traz esse conflito ético de interesses.

Uma pergunta precisa ser respondida: a organização fisiológica e hormonal, antes da mudança de sexo, possibilitará um desempenho esportivo melhor e mais vantajoso à mulher trans? Esse é o cerne da questão. Claro que os assuntos se misturam: inclusão e respeito com participação disso no esporte. Mas, infelizmente, não existe a possibilidade de sermos reducionistas nessa avaliação. Se o corpo feminino recebeu uma dose maior de testosterona, por um tempo qualquer, ele construiu um equipamento articular e muscular diferente daquele corpo que não recebeu. Consequentemente, isso poderá ter repercussões no desempenho.

O Brasil avança em passos curtos e lentos para a construção de uma sociedade mais inclusiva e menos preconceituosa. Isso é fantástico, pois o preconceito expressa um lado maldoso da nossa espécie. Contudo, precisamos ser justos nessa temática. Necessitamos de uma reflexão não contaminada, pois temos uma discussão que ultrapassa a inclusão social das identidades de gênero.

Régis Eric Maia Barros