Existiria alguma Arqué para a corrupção no Brasil?

Corrupção

A quebra do mito demandou dos primeiros filósofos (Pré-Socráticos) a busca de um princípio originário (Arqué ou Arkhé) capaz de explicar o mundo e ordenar em harmonia as coisas (Kósmos). Assim, a lógica e a razão foram prosperando e o pensamento humano se desenvolvendo de modo que o olhar mágico da cegueira sobrenatural foi deixando de dar as cartas. Ao admirar esta quebra de paradigma promovida por tais filósofos, poderíamos, também, filosofar e refletir sobre a corrupção no Brasil. Existiria alguma explicação? Existiria alguma causa? Existiria algum princípio originário?
Recentemente, uma parcela da população, de forma democrática, protestou nas ruas contra a corrupção no Brasil, que tem características históricas e capilarizadas. Contudo, antes de refletirmos sobre, há uma necessidade de nos questionarmos: Por que a nossa política (municipal, estadual e federal) e os nossos políticos têm esta peculiaridade – a corrupção.
Os nossos políticos representam em última instância nós mesmos. A composição de todos os órgãos do legislativo e os representantes dos nossos executivos, em todas as suas esferas, trazem neles nós mesmos. Acredito que a silepse de pessoa seja a figura de linguagem perfeita para representar este raciocínio, portanto os “políticos somos nós”. Então, seria bizarro pensar que, de alguma forma ou de outra, estamos sendo ou atuamos de forma corrupta no cotidiano?
Eis um belo “ponta-pé” em busca da nossa resposta filosófica. Por vezes, somos conhecidos culturalmente por ser um povo capaz de dar um “jeitinho”. Há, inclusive, uma expressão conhecida – “o famoso jeitinho brasileiro”. Mas que jeitinho é este? Este “jeitinho”, repleto de desejos de se dar bem, representaria um corromper? Este “jeitinho” é um ato de corrupção? O político que engana e faz negociatas arranjou uma maneira de dar um “jeitinho”?
Alguém poderia me dizer que isto não tem nada a ver e, até, me responderia da seguinte forma: “não, o que temos é um funcionar amigável deste povo acolhedor, humano e alegre”. Será? O “jeitinho” beneficia alguém e o caminho do “jeitinho”, geralmente, desvia as ações dos eixos. O sonegar um imposto, o furar uma fila, o trancar um carro em via pública, o mudar um prazo, o parar na faixa de pedestre, o estacionar numa vaga de carro específica, o ajustar as coisas em benefício próprio e por aí vai representariam um “jeitinho” ou uma ato claro de corrupção. Alguém poderia também me repreender da seguinte forma: “é diferente roubar milhões e estacionar o carro em vaga de idoso, sem ser um idoso”. A minha resposta a esta reflexão seri: não, definitivamente, não. A única diferença, neste caso, será o produto do ato, mas a idéia e o princípio do funcionar são os mesmos, ou seja, o olhar para si e a construção de que isto é a prioridade. Conseqüentemente, outros ditados populares vão se vinculando a esta reflexão: “os fins justificam o meio”, “ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão” e “a ocasião faz o ladrão”. Será que, ao refletir sobre os políticos, poderemos concluir que nós somos eles e eles são nós?
Seria muito doloroso, para todos nós, ter esta conclusão. Muitos me atacariam com furor e bradariam: “respeite-me! Sou honesto e trabalhador”. Não estou afirmando o contrário nem é este o meu objetivo neste artigo. O que estou buscando mostrar é que culturalmente nascemos, crescemos, condicionamos e mantemos este funcionamento cultural de “ser sabido” e de “dar um jeitinho”. Muitos se vangloriam disto e replicam, sem notar, este modus operandi. Quando a cultura se desenvolve assim, os valores são introjetados pelos seus partícipes – os seres humanos (políticos, povo e sociedade). Eles replicaram tal funcionamento de geração para geração. O freio nesta transmissão só ocorrerá com a introjeção de novos valores frente a outros fatos sociais e ações sociais. Todavia, para isto ser alcançado será preciso aprofundar a análise. Ao usarmos a corrupção brasileira como fato social a ser analisado, precisaremos entender que a questão vai além do político A ou B ou legenda C ou D ou ideologia E ou F. A questão está em todos nós. Alguns conceitos desta situação foram trabalhados por Durkheim, Weber, Bourdieu, Giddens e Norbert Elias.
Enfim, precisamos rever nossos valores e vejo com bons olhos quaisquer manifestações pacíficas com objetivo de combater a corrupção. No entanto, será necessário e prudente apurar, também, os nossos olhos para a corrupção cotidiana. Aquela que está ao nosso lado ou que, infelizmente, aparece se quisermos dar o nosso “jeitinho”. Quem sabe esta é a Arqué da nossa corrupção.