Eugenia na cracolândia

cracolândia ação policial

É um atrevimento moral o ato de “limpar” a cidade sob o falso pretexto de cuidar dos desassistidos. A operação policial, que aconteceu hoje nas ruas da cracolândia paulistana, evidencia isso. Forças de segurança expulsando pessoas e derrubando prédios com a falácia de que “elas serão tratadas”. Mas, como tratamos alguém que não está motivado a mudar o comportamento problema? Os defensores das internações compulsórias afirmam que seria esse o método de escolha. Contudo, de que adiantaria, por si só, internar prolongadamente algum dependente de crack se nada na vida dele mudará?

A atitude de acabar a cracolândia à fórceps não resolve, em absolutamente nada, a problemática do crack nem fará com que o dependente de drogas deixe de usá-las. Pensar assim é uma atitude inocente ou má intencionada. Qualquer tratamento para usuários de substâncias demanda motivação, ou seja, a avidez por mudar o comportamento. Isso precisa ser ofertado ao dependente de drogas. Como motivar alguém com a violência? Como motivar alguém pela violência? Como motivar alguém usando do cassetete? Desculpem-me, isso não é possível! Na verdade, agir assim até afasta a possibilidade de mudanças, visto que reforça a reatância psicológica (resistência para mudar) de qualquer pessoa, inclusive do “craqueiro”.

Vamos falar a verdade. As cracolândias incomodam a sociedade. Os “craqueiros” expõem como não temos controle de tudo. Os “craqueiros” confirmam como nós somos frágeis e gananciosos pelo prazer. Os “craqueiros” provam que nós, humanos, temos esse lado animalizado. Eles poluem a paisagem. Eles agridem os nossos olhos, pois acabamos por nos olhar neles. Os espelhos estão aí. Como falado por Renato Russo, nós nos vemos no reflexo desse mundo doente. Portanto, tudo fica feio com os “craqueiros” perambulando como zumbis. Tudo fica assustador com aqueles humanos maltrapilhos, sujos e alheios com a própria vida. Tudo fica culpado com aqueles homens e aquelas mulheres praticando pequenos furtos.

Então, restou ao agente público limpar os espaços e maquiar a situação. Quando retiramos à força os usuários de crack das ruas, nós, simplesmente, dizemos que não gostamos deles. Até aí, eu respeito, pois ninguém tem obrigação de gostar de seu ninguém, todavia vamos falar um bom português e parar de embustes hipócritas.

Atendo usuário de drogas há muito tempo e lamento que o Estado, apoiado por grande parcela da sociedade, entenda que a melhor forma de tratar o problema é essa. O Estado construindo sua especiação. Que as ruas se tornem cheirosas, pois a nossa moral está fedendo…

Régis Eric Maia Barros