Eu temo o futuro…

Acredito que a democracia, mesmo com suas dificuldades, ainda é o melhor sistema. Claro que a própria democracia tem seus equívocos e os “Freios e Contrapesos” de Montesquieu não conseguem garantir um equilíbrio democrático pleno. E a justificativa disso vem do ser humano e não do sistema em si. Os desvios podem, sempre, ser alçados e alcançados. Para tal, basta que os desejos e os atores negociem entre si. Contudo, eu ressalto, novamente, que a democracia ainda é a opção mais agradável aos coletivos sociais.

A democracia permite, pelo menos em tese, que a alteridade seja percebida na busca de ser respeitada. Os contraditórios falam. As vozes das ideologias podem e devem ecoar. O diferente há de ser aceito e a diferença acabaria por ser incorporada no cotidiano. Numa democracia sadia, pensar diferente e ver o mundo sob uma égide específica não são instrumentos para se criar especiação. Portanto, não haveria necessidade de se produzir a idéia de “superiores” e “inferiores”. Na democracia, todos podem lançar suas plataformas e propostas. Depois de conhecidas, o povo vai se organizando e criando os seus grupos de apoiadores e opositores. Isso é rico e saudável. Não é possível pensar sempre igual. É salutar ter diferentes e diferenças. Não somos produzidos em escalas de produtos em séries. Enxergamos do nosso próprio jeito e, ao enxergarmos assim, nós acabamos por nos estruturar nesses agrupamentos políticos e ideológicos.

Portanto, que existam liberais e comunistas, que surjam “direitistas” e “esquerdistas” e que apareçam conservadores e progressistas. É isso mesmo! Esse é o jeito de funcionar. No entanto, não podemos admitir que alguém, que represente uma esfera ideológica, queira eliminar as outras.

Em face disso, não é possível se calar frente às palavras do Deputado Jair Bolsonaro (pré-candidato à Presidência da República). Ao palestrar num Clube Judaico, eis que o deputado se despiu e desnudou sua forma preconceituosa de enxergar o diferente. Como psiquiatra, eu já estou acostumado com isso. Sou sabedor que o inconsciente comunica e a sua forma de comunicação sempre é categórica. Nem vou me ater aos vários pontos equivocados do seu discurso, mas, ao falar que “o afrodescendente mais leve pesava 7 arrobas e que não servia nem para procriar”, o referido candidato ataca a democracia. Ele ataca tudo e todos. Ele enterra a ética e o humanismo. Ele animaliza. Ele dispara ódio e fomenta que esse ódio se espalhe. Ela permite que a brutalidade, tão quiescente na nossa espécie, tenha um salvo conduto.

Isso é muito grave!

Dentre as tantas questões envolvidas nesse discurso, uma é chamativa. Tais palavras foram proferidas num clube judeu. Justamente, um povo massacrado, nos direitos humanos e fundamentais, pela Alemanha Nazista. Um povo perseguido com tentativas de exterminação simplesmente por ser “diferente” como, na perspectiva do excelentíssimo deputado, são os índios, negros, quilombolas, cotistas, presos e por aí vai…

Eu temo o futuro! Se essa sociedade não conseguir frear essa perspectiva, talvez, alguns ciclos históricos possam se repetir. E o mais triste é que eles podem se repetir sob a tutela da sociedade e do povo que vive nela. Precisamos pensar!

Régis Eric Maia Barros

https://www.youtube.com/watch?v=lcXJNGhUQy8