Eu escolho salvar…

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Num programa de TV, eis que foi construído um conflito onde é necessário escolher quem deverá ser salvo: um traficante ou um policial. Qual seria a escolha correta?

Não é possível escrever esse pequeno artigo reflexivo sem, primeiro, criticar a forma como o programa absorveu essa discussão. Uma situação dessas, que necessita de um aprofundar ético, não pode ser discutida sob a égide maniqueísta de uma simples escolha.  Pelo menos três perguntas norteadoras deveriam ser trabalhadas.

Qual o valor de uma vida?

Qual vida vale mais e o porquê desse valor maior?

Escolher uma vida em face da outra, cria heróis e vilões?

Diante dessa escolha, há de se pensar se existiria algum imperativo categórico para essa situação ou, melhor, haveria algum certo absoluto? Possivelmente, não, visto que, a escolha de cada um seria pautada nas suas construções pessoais, sociais e relacionais. Para tal, há um respeito in natura para esse ato de escolher. Talvez, uns escolhessem salvar um deles e alguns o outro.

O grande problema será a conseqüência dessa escolha frente ao julgamento daquele que escolheu diferente. Nessa ciranda ética do “certo” e do “errado”, criam-se, de forma inconsciente, exércitos ideológicos com potencial de guerrear entre si. Consequentemente, muitos outros poderão morrer sem, inclusive, existir a escolha da salvação.

Ao invés de pararmos para analisar o que acontece nessa sociedade moribunda, criamos cenas e dramaturgias onde a vida e a morte são escolhidas e selecionadas. Isso sim é o mais grave desvio ético de tudo que foi descrito. Em face da nossa cegueira social, morrem centenas de policiais e de traficantes. Todos os dias, eles estão morrendo! Qual vida é a mais importante? Se perguntarmos às mães de cada um dos falecidos (policiais e traficantes), elas responderão.

Ou paramos para perceber que o nosso modelo social e educacional faliu ou muitas outras mortes acontecerão. Quando escalonamos que vidas são mais dignas e importantes do que outras, nós, sem notarmos, agravamos o problema do qual desejamos solução. Estratificar o valor da vida é uma conseqüência desse caos social em que estamos imersos que acaba sendo um terreno fértil para o ódio e o extermínio.

Será que o medo será o sentimento mais presente? Se assim for, a vida já findou antes mesmo do fim morrido ou do fim matado. Está tudo errado e a discussão deve focar não em qual vida é mais importante, mas sim na vida como um todo.

Régis Eric Maia Barros