Eticamente “enCUNHAlados”

Eduardo-Cunha

Ao ver o carinho e a aproximação de muitos para com o Presidente da Câmara dos Deputados (deputado Eduardo Cunha), lembro-me da música “A Novidade”, que foi cantada por Gilberto Gil e pelo Paralamas do Sucesso. Assim é um dos seus refrões: “A novidade era o máximo. Um paradoxo estendido na areia”. Este trecho permitirá uma reflexão na leitura desse curto artigo.

Quanto paradoxo! Em busca de lutar por direitos, transparência e pelo fim da corrupção, muitos estão se ombreando com o deputado Cunha. É isto mesmo! Cidadãos, entidades, instituições, associações, políticos e legendas fotografando e sorrindo em selfies com a excelência Cunha. Eis que surge um questionamento filosófico: como é possível combater a corrupção e ter transparência usando como agente promotor este nobre deputado? Vamos refletir: isso tem ou teria cabimento?

Sou sabedor que o deputado Cunha é a bola da vez e o poderoso do momento. Ele é aquele que consegue impor derrotas ao governo. Ele é aquele que confronta o PT e a presidente. Ele é o “cara”! Em face disso, muitos dizem: “somos todos Cunha”. Outros bravatam que o Cunha “é a nossa voz”, ou melhor, “a voz dos que padecem pela corrupção”.

Quando esses apoiadores do Cunha são confrontados sobre as tramóias do mesmo, a resposta é tosca e desprovida de envolvimento ético. A justificativa é feita no seguinte jargão: “nós nos reunimos como o Presidente da Câmara e não com o deputado Cunha”. Portanto, se seguirmos este pensar confuso, concluiremos que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Em meio a tantas coisas, não entendo nem consigo compreender tal dicotomia. Haveria eticamente e moralmente dois deputados Cunha – um Presidente da Câmara e um corrupto de carteirinha?

Claro que não! Uma perda ética sem igual que me permitirá criar uma justificativa mitológica e metafórica para esta divisão. Enfim, seria algo como dormir com a Medusa para eliminar o Minotauro. O resumo abaixo levará a um melhor entendimento crítico dessas falas que transformam o deputado Cunha em figura dicotomizada.

“Para matar o Minotauro, eu posso me deitar com a Medusa, todavia a Medusa possui duas formas a se saber. Uma delas é representada pela figura má e horrenda com cabelos de cobra e capaz de petrificar seus opositores. A outra seria uma senhora poderosa que, por motivos históricos, é presidente da sua classe de seres abomináveis e que, por conseguinte, pode extirpar o Minotauro da face da terra. Então, a Medusa pode ser outra Medusa e o monstro poderá ser a salvação, visto que, odiamos o Minotauro. Assim, poderíamos nos deitar com ela até por que ela não é ela e poderá ser um agente do bem”.

Embora possa ter ficado confuso, seria por aí mesmo. Um Cunha que não é Cunha. Um Cunha que conduzirá nossas pautas e nossos pedidos. Um Cunha anti-governo. Um Cunha que é Presidente da Câmara e somente isso. Nada mais do que isto. Nós que escolheremos como classificá-lo e como vamos nos relacionar com ele. A escolha é livre e poderemos usar do utilitarismo em nosso propósito, contudo, em períodos em que se luta por ética e seriedade, talvez esse não seja o melhor caminho para se dar o exemplo.

Régis Eric Maia Barros