Ética, um bem em raridade

EDUARDO CUNHA/ENTREVISTA

Os tempos atuais são nebulosos. Pelo menos, assim, eu enxergo. Uma crise nas instituições brasileiras que nos provoca enjoo. Esferas do Governo Federal envolvidas em escândalos. Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, claramente, denunciados em ilícitos. Os órgãos públicos apodrecendo em meio a tantas negociatas. Contudo, de onde surgiu tal fenômeno? Tudo isso seria um “azar do destino” ou uma coincidência. Enfim, será que os “astros” conspiraram determinando que uma onda e uma horda de corruptos estivessem nos poderes? Não, isso é um produto coletivo. Qual está sendo a ética da sociedade e dos seus membros? Nesta gangorra, vamos balançando e dando nossos “jeitinhos”. Há, inclusive, um singelo apelido para esse comportamento – “o jeitinho brasileiro”. O fato de “se dar bem” gera consigo um custo. Perdemos os referenciais do “certo” e do “errado”. Morremos “deontologicamente” e, quando morremos dessa forma, acabamos por matar cada vez mais a ética e a moral. Os valores éticos que internalizamos determinam nossos atos morais. Se eles são questionáveis, perdemos a dignidade para cobrar uma ética saudável dos outros participantes da sociedade. E pior ainda, se a sociedade tem um padrão pouco ético, os gestores se espelharão nisso, pois o modus operandi do agir social validará e legitimará tudo. Então, quando o corrupto aparece isoladamente, temos o exemplo de um agir desviante e destoante. No entanto, se temos corruptos produzidos em escala industrial, fomos nós, homens e sociedade, que os criamos e os moldamos. Neles a sociedade refletiu o seu agir e deles surgirá o reflexo de nós. “Nós” e “eles”! “Eles” e “nós”! Antípodas mais próximas do que imaginamos. Então, não basta revolucionar com “panelaços”, gritos ufanistas e camisas da seleção brasileira em manifestações. É preciso mais. Na verdade, muito mais. Urge a necessidade de uma revolução interna em valores éticos. Urge a precisão de que sejamos ativos nesse processo. Nossos comportamentos virtuosos e o agir ético aprumado promoverá a colheita de frutos nas gerações futuras. Sem isso, o agir não ético e os corruptos acontecerão aos montes e, conseqüentemente, perderemos de novo.

Régis Eric Maia Barros