Educação além da fé: uma perspectiva de conhecimento por Santo Agostinho

Santo-Agostinho

De que forma o conhecimento é construído? Eis uma pergunta que nunca será ultrapassada ou caduca. É justo acreditar que o conhecimento terá íntima relação com a linguagem e com a educação, que são instrumentos do saber que atuam de forma sinérgica. Dentro da sua perspectiva religiosa, Santo Agostinho, usando idéias do neoplatonismo, trabalhou tais propostas deixando um interessante legado para as futuras representações do saber humano.

A idéia de refletir filosoficamente, usando a linguagem como pano de fundo, é uma construção interessante, sobretudo quando aprofundamos pontos chaves desta análise, por exemplo: o olhar semântico e o papel dos sinais. Ao usar tal conceituação, Santo Agostinho mostrou que todo sinal representaria algo e, desse modo, ao ser manifestado aos sentidos, o conhecimento poderá ser construído. No entanto, as palavras e outros sinais deverão ser analisados com cuidado, sobretudo quando nos referirmos à realidade. Ou seja, as palavras nem sempre poderão trazer o conhecimento, caso as recordações e os saberes prévios não sejam trabalhados. Conseqüentemente, só é possível ensinar e produzir um conhecimento, se o sinal, apresentado ao interlocutor, é compreendido por ele como uma representação do próprio do objeto em análise do qual se busca descrever. Para tal, há uma necessidade de vivência pessoal anterior em relação àquilo que se descreveu com o sinal (ex: palavras). O apreender e o ensinar sobre qualquer objeto serão vinculados ao fato deste objeto já ser conhecido pelo interlocutor. Logo, o sinal, a palavra e a codificação lingüística, por si só, são frágeis e não produzirão um conhecimento sem esta contextualização temporal e vivencial.

O entendimento de Santo Agostinho mostrou que o conhecimento está por detrás das palavras e não nas palavras ou noutros sinais lingüísticos. O que é importante, de fato, nos processos de conhecimento e de ensinamento, será o significado real das coisas, isto é, o que as coisas são e não de que forma as coisas são nomeadas.  Então, dialeticamente, os sinais poderão ser desconstruídos através do diálogo de modo que a essência das coisas é evidenciada. Dialeticamente, o real significado das coisas, que está por detrás do código ou sinal das suas conceituações, aparecerá na vivência anterior, que é particular a todos os humanos. Aprende-se sobre um objeto pelo que realmente cada objeto é não por aquilo que ele é nomeado, visto que, nomeamos as coisas como queremos e não como, realmente, são.

Em períodos onde a palavra pode ser usada como domínio, recebemos esta contribuição crítica de Santo Agostinho. Os meros sinais nunca deveriam ser utilizados para domínio, pois nenhum sinal mostra, isoladamente, a verdade. É vivendo que nos jogamos no mundo e acabamos por conhecer. Após isto, os sinais e a palavra nos ajudarão ensinar e aprender. Portanto, somos seres que ultrapassam os códigos, pois codificar poderá representar um domesticar e, se vivermos e experimentarmos o mundo e as coisas, nós não permitiremos uma domesticação. Assim, deveriam caminhar os modelos educacionais. Em outras palavras, o conhecer vai além dos sinais e representa a capacidade nobre de viver, recordar, compartilhar e existir.

 

Régis Eric Maia Barros