E o nosso desejo de ser Fabíola?

vadias latuff

Não estarei aqui defendendo a traição nem tentando estimulá-la. Bem resumidamente, o trair é um produto da desorganização na relação amorosa ou no comportamento do traidor. A traição sempre deixará marcas nos protagonistas dessa história (traído, traidor e amante). Não passará em vão. Marcará para sempre nem que seja no funcionamento inconsciente de todos. Contudo, há diferenças sociais quando se descobre uma traição de um homem ou de uma mulher?

A verdade é crua e nua. Recentemente, um vídeo, que viralizou pelas mídias sociais, é a prova disso. Uma mulher filmada no motel pelo esposo traído. Misturado à angústia e ao choque impetrado pelo acontecido, tivemos um enredo assustador. Um vídeo filmado por alguém que de certa forma alimentava, com falas e posturas, a agressividade latente. Um indivíduo traído explodindo e sem conseguir conter a agressividade. A traidora sendo filmada por um smartphone. Enfim, uma cena surreal pela constelação de sentimentos embutidos nela. Mas o pior estaria por vir – a divulgação do vídeo pela internet e mídias sociais e a exposição dos envolvidos. Como se fala na gíria da internet, o vídeo “bombou” e se espalhou numa velocidade imensa de norte ao sul do país. A traidora se tornou celebridade, mas a fama não se deu por elogios, mas sim pelo desdém pejorativo presentes nos comentários das postagens.

Quando o homem trai, a percepção é outra. Ele é um “comilão”. Ele é “foda”. Ele é “macho”. Se a mulher trai, tudo fica diferente. Ela é “puta”. Ela não “pensa na família”. Ela é “biscate”. O mesmo ato com julgamentos completamente diferentes. Nesse caso, os julgadores foram perversos e bem machistas. A mulher do vídeo foi trucidada publicamente e quase esquartejada em praça pública. A fim de que? Para alimentar o gozo vingativo de quem? Até onde eu sei a traição, embora eticamente não aceitável, não é crime, todavia o ato de martelar patrimônio alheio, agredir e açoitar são crimes previstos em lei.

O mais triste de tudo isso é que li poucos comentários capazes de criticar a exposição da moça, mas percebi outros incontáveis que julgavam com crueldade a dignidade dela. Uma sociedade de dois pesos e duas medidas. Um mundo onde a questão de gênero salta aos olhos e negamos ou fazemos de conta que não enxergamos. A Fabíola fez o certo ou o errado? Não serei o juiz de tudo isso. Não desejo assumir esse papel, embora seja sabedor de que muitos críticos assumiram-no. O que importa nessa reflexão é o quanto somos perversos e capazes de curtir com a desgraça alheia. Isso, infelizmente, alimenta muitos e, nesses casos, quando o protagonista é uma mulher, temos um coquetel molotov. Aí as garras machistas se apresentam. A Fabíola se transformou num monstro. Ela passou a ser uma sanguinária a procura de sexo. Ela, conforme um comentário que li, gosta mesmo é da “putaria”. Nada mais do que isso foi extraído daquela cena de horrores. Algo semelhante às bruxas da idade média que queimaram nas fogueiras da inquisição sob o júbilo dos expectadores.

É preciso entender que, quando atuamos com tanta maldade, assumimos, ao mesmo tempo, o papel de inquisitor e expectador que curti a desgraça alheia. Por fim, pergunto: quantos de nós já desejamos trair e quantos de nós já traímos? Nessa terra de “santos”, possivelmente, “ninguém”.

Régis Eric Maia Barros