Desigualdades no pó

Quais são as semelhanças e diferenças entre as cracolândias e as aeronaves, abarrotadas de cocaína, que têm íntima relação com políticos? Situações com dois pesos e duas medidas. Juízos de valores diferentes ofertados pela opinião pública e a mídia. Quem é mais bandido: o dependente emagrecido, que perambula a esmo pedindo trocados, ou o político com aviões e helicópteros repletos de pó?

A polícia entrou na cracolândia da cidade de São Paulo com força total. Vendo as imagens, lembrei-me do massacre ao levante de resistência do Gueto de Varsóvia. Uma dispersão pelo uso da força. Uma ação aplaudida por parte da sociedade e apoiada pelos chefes do executivo do município e do estado de São Paulo. Uma limpeza sob a falácia de ajudar e tratar os “desfavorecidos”. Uma enganação pautada no jargão mentiroso de que “algo tinha que ser feito”. E, de fato, foi feito! Varreram-se as ruas. Dispersaram os usuários que, antes, ficavam concentrados em uma região e, agora, se distribuíram por vários espaços. Nada foi solucionado, mas a “sensação” é de que o gestor, empoderado e astuto, fez valer a sua “coragem”. Não há coragem quando o poder é usado contra aqueles que são incapazes de argumentar e se defender.

Coragem mesmo seria, por exemplo, agir contra os políticos envolvidos com as “aeronaves do pó” usando o mesmo furor que se usa com os “craqueiros” das ruas. Mas, a realidade é bem diferente.

Não me venham com a argumentação tosca de que a preocupação com as cracolândias representa um olhar humanístico da sociedade aos dependentes de crack. Muito pelo contrário! Aqueles espaços incomodam, chocam e poluem o visual social. Então, como falado: “algo precisava ser feito”. Se assim é a lógica, quando um ministro ou um senador tem centenas de quilos de drogas em aeronaves, estamos diante de alguma “sujeira”? Estamos diante de uma sujeira ampla, pública e fedorenta, porém questiono: “algo foi feito”?

Quanta hipocrisia! Para o “craqueiro”, invasões truculentas a fim de limpar espaços e purgar os vícios. Para os donos das “aeronaves do pó”, praticamente nada. Por fim, cito meu pai, homem do sertão do Ceará e de pouca instrução letrada, mas sábio nas suas análises. Ao refletir como somos julgados, assim, ele se referia: “a gente só vale o que tem”. Nesse sentido, há uma diferença imensa entre os “craqueiros de rua” e os donos das “aeronaves do pó”. Está, portanto, explicado as diferenças das coisas. 

Régis Eric Maia Barros