Cidadania é diferente de selvageria

Cidadania e Selvageria

Lembrei-me de algumas cenas que ganharam espaço recentemente na imprensa. Essas cenas mostravam cidadãos gritando, vaiando e apontando o dedo na cara de terceiros. Tais roteiros aconteceram em espaços públicos e foram captados pelas câmeras particulares daqueles que assistiram as cenas e também da imprensa. Citarei aqui dois desses eventos: o primeiro com um ex-senador da república (Suplicy) numa livraria em São Paulo e o segundo com os médicos cubanos na Escola de Saúde Pública do Ceará. Em ambos os casos, quem atacou de forma selvagem e desproporcional o outro foram pessoas esclarecidas. Nos exemplos destacados, foram, mais especificamente, profissionais liberais e médicos. Nesses eventos, tivemos expressões de intolerância de “esquerdistas” e “direitistas”.

 

Isso foi feito como forma de exercer a cidadania? Mas, se assim o fizeram, há um desconhecimento total sobre o que é e de que forma a cidadania é construída e aplicada. Atacar, hostilizar, agredir e excluir não traz cidadania aqui e em nenhum lugar do mundo. Ao emitir essa opinião, certamente, muitos me colocarão no papel de apoiador dos equívocos do Governo Federal. Já estou acostumado com isso. Numa sociedade cindida como a nossa, esse maniqueísmo perceptivo é quase regra.

 

Necessito ressaltar que o discordar de projetos e propostas governamentais é legítimo, natural, democrático e saudável. No entanto, isto não nos permite ser selvagens com posturas excludentes, pois, se assim agirmos, confirmaremos as idéias de especiação social com formação de estratos “superiores” e “inferiores”. Não existe, na ética, a possibilidade de “dois pesos e duas medidas” nem, muito menos, de sermos “mais ou menos éticos”. Devemos sempre ser éticos e moralmente evidenciar isso. Não adianta nada cobrar ética dos agentes públicos se não aplicamos conceitos éticos básicos na nossa própria vida. Inclusive, merece ressalva afirmar, em letras garrafais, que a ética e a cidadania andam de mãos dadas, tanto em termos de função quanto de origem. Desse modo, exercer a cidadania vincula a necessidade de sermos éticos.

 

Conseqüentemente, vaiar médicos cubanos e agredir políticos, que não simpatizamos, nos afasta da cidadania por mais que muitos acreditem ser o exemplo maior do seu exercício. Esse é um grande problema, ou seja, falhar eticamente para cobrar coerência moral nos outros. Fica a observação: sempre que a selvageria imperar a cidadania sucumbirá.

 

Régis Eric Maia Barros