Cantada ou assédio?

assédi e paquera

Qual o limite entre um e o outro? Há maneiras de reconhecer essa diferença? Nessa sociedade polarizada, analisar assuntos como esse é algo espinhoso, pois a chance de ideologização da discussão é quase que espontânea. Mesmo assim, esse assunto necessita ser falado. Diversas situações no cotidiano e denúncias no meio artístico comprovam que essa realidade é freqüente.

Nenhum namoro ou casamento nasce sem um flerte prévio. A troca de olhares e os afetos encaminhados numa relação entre pessoas podem ser mágicos. Daí, surge a essência do encontro. Não o encontro material com dia e data, mas sim o encontro de projeto. A busca de uma história. O flerte sincero representa o pontapé da história amorosa. Sem isso, seríamos, somente, robôs procriadores. Sem isso, não haveria sentido em se relacionar. E nós, humanos, somos seres de relações. É o flerte, traduzido na fala, no olhar, na postura, no sorriso e no toque, que nos permite tudo em termos de amor e de futuro.

No entanto, claro que, nessa perspectiva, existem alguns limites subtendidos. Esse flerte não pode ser um domínio nem representa uma imposição de gênero. Esse flerte, que muitas vezes se abstrai numa “cantada”, não deve agredir, moralmente, nem expor, pejorativamente, a outra pessoa. O flerte nunca poderá se vincular à vantagem financeira, econômica, social e ocupacional. Não é flerte o ato de ofertar vantagens se houver beijos ou sexo em troca. Isso não é conquista. Isso é cretinice perversa de pessoas que não se amam e que não respeitam os outros. Se não houver uma devolutiva positiva da pessoa flertada, significará que não, significará um não.

E, por mais que seja lógico, ressalto que “não é não”. Insistir nisso ou insistir depois disso (“o não”) é assediador. Abordar alguém de forma agressiva é assediador. Abordar alguém de forma pejorativa é assediador. Abordar alguém ofertando um escambo de vantagens é assediador. Abordar alguém usando de força física, psicológica ou hierárquica é assediador.

A cantada, conjugada ao flerte, não é isso, mas infelizmente há muitos que confundem a bolas. A cantada é leve, livre e, melhor ainda, permite o bidirecional. O assédio não permite nada disso. Ele é falacioso e interesseiro. Portanto, o assédio ocorre numa lógica unidirecional, mesquinha e oportunista. A cantada deverá sempre acontecer. Ela faz bem. Já o assédio, precisa ser repudiado por todos. Portanto, que possamos flertar mais, elaborar belas cantadas e assediar jamais.

Régis Eric Maia Barros