Beauvoir, feminismo e o ENEM

Feliciano ENEM

Nunca imaginei que algumas questões do ENEM, que traziam no seu escopo conteúdos filosóficos e sociais, gerassem tantas manifestações e várias reclamações. Pois bem, ressalto, aqui, a questão 42, que cita Simone de Beauvoir e um dos seus pensamentos. Infelizmente, pela calorosa discussão devido esse quesito, a pior conclusão de tudo isso é a percepção de como a sociedade está cindida. Muitos alegaram que houve “doutrinação”. Como assim? Doutrinação de que, de quem e para quem? Desde quando, trazer conteúdos atuais utilizando pensadores sociais e filósofos é doutrinar. Ademais, temos uma dantesca falta de capacidade para contextualizar o que está escrito com a realidade da vida social do Brasil. Creio, inclusive, que se evita mesmo o interpretar e o contextualizar, pois, assim, as críticas ácidas e mesquinhas poderão reverberar. Em outras palavras, o pensamento preconceituoso terá uma fantasiosa ancoragem e poderá se propagar.

Um dos pontos mais atuais e preocupantes do cenário nacional é a violência pela qual a mulher vem passando no decorrer da história brasileira. Todos nós somos testemunhas disso. Isso é real e palpável. Isto é fato. Eu trabalho num setor de perícias judiciais de um grande Tribunal Federal do Distrito Federal e, por lá, essa realidade é assustadora. Na minha unidade de trabalho, infelizmente, eu testemunho inúmeras formas de agressão para com as mulheres as quais extrapolam as físicas, visto que, o agredir aparece nas mais diversas facetas. Contudo, não é preciso trabalhar lá para concluir isso tão facilmente da mesma forma que eu fiz. Basta olhar para fora de si e deixar o “umbigo” de lado. Então, depois do famigerado quesito do ENEM, eis que percebo um número considerável de pessoas desdenhando desse conteúdo como se a discussão se restringisse a ter ou não “vagina” ou “pênis”. Francamente, a que ponto nós chegamos! Somos incapazes de cuidar do gênero feminino e acabamos por trazer a maldade do nosso pensamento à tona.

Enfim, em meio ao maniqueísmo tosco dos “coxinhas” e dos“ socialistas doutrinadores”, merecerá destaque a reflexão existencialista de que a “existência precede a essência”. Desse modo, somos o que construímos e produto das nossas escolhas. Logo, Beauvoir está corretíssima ao afirmar que “ninguém nasce mulher, pois se torna mulher”. Aos machistas de plantão, ressalto que, também, “ninguém nasce homem, pois se torna homem”. Até por que ser “homem” e “mulher” transcende o ter ou não falo. Por fim, caso seja um machista assumido, pergunto-te: és tu tão macho quanto você pensa?

Régis Eric Maia Barros