As pessoas se matam

Chester Bennington

Chris Cornel

Sempre que alguém famoso comete um suicídio, reportagens e reflexões surgem com o seguinte questionamento: como isso foi possível? A verdade é dura e não permite negações por mais que ela machuque. Portanto, precisamos entender que as pessoas, por vezes, escolhem não mais viver e acabam por se matar.

Se isso é um fato, precisamos, mais do que nunca, conversar sobre isso. Somente assim, teremos melhores condições de ajudar as pessoas que, em sofrimento, pensarão e executarão um suicídio. Por uma grave carência desse entendimento, muitos estão morrendo precocemente. A sociedade e o Estado não sabem o que fazer. Consequentemente, a melhor alternativa – a prevenção do suicídio – não é adotada. O resultado é triste e as estatísticas também. Todos, que me lêem até aqui, já tiveram alguém próximo (familiar, amigo ou conhecido) que cometeu um suicídio. Ficamos espantados e atônitos. De fato, queremos não acreditar, sobretudo, se o suicida tiver algum vínculo conosco. No entanto, seguimos a vida e não paramos para pensar no que está acontecendo.

Viver é uma tarefa complexa. Somos tocados recorrentemente pela vida. Choramos e sangramos. Às vezes, damos conta. Outras vezes não e, por isso, sucumbimos. Nessa dança de resiliência, deprimimos. Brota e cresce um sofrimento emocional que é capaz de nos contaminar por completo. O que era colorido fica preto. O prazer se transmuta em angústia. Quem vive isso não pode, em hipótese alguma, ser alcunhado ou rotulado como um fraco ou “fresco”. Nesse momento, o que mantém ainda a vida é a ambivalência da certeza/incerteza entre o viver e o se matar. Se a resultante for para um lado, a vida continua, porém, se for para o outro, a morte prevalecerá. É preciso agir nessa ambivalência, ou seja, criando instrumentos de proteção. Criando uma sociedade mais preparada para escutar e acolher os que padecem de um sofrimento mental. Criando uma vida de relações onde as pessoas percebam mais as outras e troquem mais afetos. Criando um olhar mais humano à doença mental. Criando mais redes eficientes de tratamento em saúde mental de modo que o potencial suicida seja percebido e tratado.

Ou melhoramos a nossa escuta individual, coletiva e social ou muitos, que poderiam ser salvos, ainda cometerão suicídio. Os números são espantosos e vão muito além dos famosos dos noticiários. Morre-se muito! Morre-se cedo! O suicídio é assim: a morte escolhida por não se ter escolha diante do terror de uma grave dor emocional e mental.

Régis Eric Maia Barros