Artistas “vagabundos”

Artistas Aquarius

 

Como é bom beber da cultura e como ela fortalece qualquer ser e permite mudanças. Assim, a filosofia, a teologia, a literatura, a pintura, o cinema, a música e o teatro operam. As artes e os artistas promovem essa alquimia. São eles os responsáveis por essa possibilidade – a de mudar um contexto estático de anomia cultural de um povo. Os países que, historicamente, entenderam isso construíram de forma plena seus legados. Eles possuem um background sem igual. Costumamos, inclusive, a admirar essas nações, culturalmente, ricas bem como a valorizar seus protagonistas culturais (os artistas). No entanto, aqui, no Brasil, os tempos são sombrios e mesquinhos. A dicotomia política chegou a níveis delirantes. O artista, que se posicionar contra o impeachment, é um “vagabundo” e sua arte passa a ser, aos olhos desses críticos desnaturados, uma podridão. Instiga-se que o referido apoio se deu por agrados financeiros. Como se o artista não tivesse capacidade critica de criticar o “Golpe”, que para mim é claro e concreto. Nesse contexto, surgem políticos e outros cafajestes afirmando que o Ministério da Cultura é um antro de desocupados e de “esquerdopatas”. Francamente, olhem aonde chegamos! Nós estamos matando a nossa própria cultura que, diga-se de passagem, engatinha frente à falta de investimento adequado. Esses artistas que são chamados de “vagabundos” e “mamadores das tetas” são percebidos, elogiados e, até, reverenciados nos outros continentes. Mas aqui, não! Eles são “vagabundos escrotos” que não querem trabalhar. Eles, por “não fazerem nada”, estão aí sendo contra o impeachment. Se assim for, peguei-me a refleti da seguinte forma: será que sou também um vagabundo já que sou, totalmente, contra o Golpe do Impeachment? Talvez, sim, aos olhos secos, rudes e maldosos desses tristes críticos. Mesmo trabalhando de segunda a sábado, quase os três turnos, sou um vagabundo. O mais louco e esquizofrênico é lembrar o clichê usado pelos manifestantes patriotas que vestiam a camisa verde-amarela da Nike – “vamos findar a corrupção desse país”. Seria a cultura um instrumento útil e eficaz para tal propósito? Seria a cultura um instrumento capaz de fazer um povo dominado refletir? Bem, cada um julgue como desejar. Cada um faça a análise que quiser. Todavia, no Brasil, se anda para trás e com o aval daqueles que se julgam, toscamente, politizados. Agir atacando a cultura é uma prova cabal de que carecemos da própria cultura. Aniquila-se o pouco que se tem e, depois disso, há um gozo coletivo, pois os “artistas esquerdopatas vagabundos” irão ter “que trabalhar”. Na verdade, ser artista, por aqui, já demanda uma necessidade de trabalho bem maior do que os soberbos críticos. Não é fácil nadar contra a correnteza e fazer arte onde não se valoriza a cultura e onde, tristemente, se ataca os artistas. Chegamos ao fundo do poço, pois a pobreza comportamental manifesta-se nesses atos. Todos que forem contra o impeachment terão um rótulo. Ainda bem que cada vez mais muitos se colocam e evidenciam que não somos minoria. Pelo contrário, somos sertanejos, operários, agricultores, profissionais liberais, donas de casa e ARTISTAS contrários a essa artimanha política de ataque à democracia. Assim, eu penso – médico psiquiatra e vagabundo (para quem quiser me chamar assim).

 

Régis Eric Maia Barros