Aristóteles na escolinha

aristoteles

 

Cheguei mais cedo em casa e comecei a brincar com o Benjamin, meu filho caçula. Nesse momento, pude perceber uma conversa entre o Leozinho e sua mamãe. Tratava-se de um pedido dele. Eu explicarei a seguir. A escolinha do Leozinho sempre estimula que se faça uma festinha simples no aniversário de cada um. Assim, o aniversariante poderia comemorar com os seus coleguinhas.

 

Nos próximos dias, será a vez do Leozinho. Acontece que ele estava preocupado e esse era o enredo da conversa dele com a Veca (sua mamãe e minha esposa). Ele estava angustiado, porque alguns dos seus coleguinhas têm intolerância à lactose e não poderiam comer os docinhos, o bolo e o pão de queijo da festinha. Eis que no decorrer da conversar, a solução foi construída com a participação ativa dele – todos os alimentos seriam feitos sem lactose de modo a incluir, de fato, a totalidade dos coleguinhas na comemoração.

 

Poucos minutos depois, chamei o Leozinho e o enchi de beijos. Dei meus parabéns pela sua atitude e pelo seu desejo de incluir todos. Eu aproveitei para explicar que não nascemos iguais a todo mundo. Salientei que nós podemos ter algum “probleminha” que atrapalhe a nossa vida. Salientei, de forma mais forte, que, às vezes, nós não temos nenhum “probleminha”, mas os outros podem ter. Mesmo que o “probleminha” não impossibilite a vida, caberá a nós, que não o temos, incluir e acolher quem tem. O “probleminha” pode ser desde um “dodói” até nãoter dinheiro para comprar um brinquedo ou uma comida. Finalizei essa rápida conversa explicando que é função nossa respeitar e cuidar de todos, sobretudo daqueles que possuem quaisquer “probleminhas”, pois, só assim, seremos justos.

 

Nesse momento de vida do Leozinho, eu não posso citar textualmente Aristóteles, contudo devo ovacionar a bondade inata do Leozinho além de tentar passar, ludicamente, os conceitos de justiça aristotélicos. Sim! É fato. Meu Leozinho sabe que os desiguais devem ser tratados de forma desigual, na medida das suas desigualdades. Só assim, a justiça existe e a coerência social poderá ser mantida. A inclusão e a oferta de elementos para diminuir a desigualdade é o correto. Os iguais (sem “probleminhas”) são tratados de forma igual, mas, se houver desigualdade, caberá ao ser humano ficar atento a isso para criar inclusões que promovam o justo e a justiça.

 

Em tempos tristes e mesquinhos, onde a sociedade ataca os desiguais que precisam de políticas públicas de inclusão social, o meu Leozinho incorporou preceitos de justiça aristotélica da forma mais bela que eu pude testemunhar.

 

 

Régis Eric Maia Barros