Alzheimer, perícia psiquiátrica e memórias do holocausto

campo de concentração

Novamente, enquanto médico psiquiatra e perito, eu recebi um aprendizado que transcende os parágrafos e rodapés dos livros. Eis que hoje eu atendi uma senhora de nacionalidade húngara que fugiu da guerra em meados da década de 1940. Sua família escolheu o Brasil por vários motivos, mas merece destaque a seguinte fala dela: “vocês são um povo do bem e precisávamos disso”.

Era uma perícia de interdição cuja justificativa era a Doença de Alzheimer que a acometia há alguns anos. De fato, o diagnóstico não era difícil de ser realizado, visto que, a memória recente e de fixação estava prejudicada além de outras funções cognitivas. No entanto, a memória remota estava vívida e, com ela, a pericianda descreveu as memórias do holocausto da maneira mais vivaz que pude testemunhar. Acredito que nunca mais terei outra descrição tão forte, viva e vivencial de tais atrocidades. Infelizmente, a história dessa doença demencial acomete inicialmente a memória imediata e recente. É possível que, se ela pudesse escolher, a escolha fosse perder essas memórias do passado. Mas, como descrevi, elas se mantiveram pulsantes.

A sua entonação de voz, o seu olhar, as suas lágrimas discretas e os seus gestos conseguiam, mesmo com a fragilidade da sua idade, demonstrar a dor frente aquele mal. Parecia que ela precisava falar, pois eu não perguntei e não perguntava nada. Todavia, ela descrevia os acontecimentos com riquezas de detalhes e eu não podia interrompê-la. Ela demandou que eu a escutasse e assim eu o fiz até o fim. Os detalhes sobre a perseguição dos judeus, as atrocidades, o campo de concentração, a falta de humanidade e a morte dos familiares e amigos trouxeram em mim uma angústia acachapante. Certamente, quem viveu tão grande mal nunca esquecerá. Isso é fato e ela é a prova disso, pois seus neurônios, mesmo dando sinais de “cansaço”, não eliminaram tais recordações.

Cerca de 70 anos se passaram. Ela disse que “era brasileira de coração”. Em terras brasileiras, nasceram seus filhos. Aqui, ela reencontrou a vida. Claro que novas memórias foram criadas e alimentadas, porém aquelas de outrora sempre se mantiveram presentes. É impossível que ela um dia se esqueça daquilo. Acho que, mesmo em estágios avançados da doença, as lembranças dolorosas estarão presentes. Para que nunca esqueçamos o mal que nós, humanos, podemos criar, eu decidi escrever esse artigo e compartilhar. Era o mínimo que eu poderia fazer. Portanto, é obrigação nossa manter presente essas recordações para evitar que façamos tudo isso de novo.

Régis Eric Maia Barros