Agir pelo “dever” ou por “respeito ao dever”?

Agir pelo dever ou por respeito ao dever

            Qual é a sua percepção sobre os seus comportamentos morais? Quando você age, acontece, de fato, uma escolha moral correta? Esses questionamentos poderiam ser refletidos e ensinados desde a base da formação pessoal (família e escola), pois, somente assim, teremos um pensar moral correto em termos sociais.

Ao agir, o melhor seríamos usar a boa vontade para transformar, racionalmente, aquela perspectiva em universal. Isso foi pensado, refletido e filosofado por Kant em sua célebre concepção do imperativo categórico. Embora existam críticas pelo formalismo da sua tese e pela falta de ancoragem ao momento histórico dos agentes morais, eu confesso, publicamente, que este pensar kantiano me agrada. Através dele, surge a pergunta reflexiva que dá o título desse texto. É incompleto agir, somente, pelo “dever”, pois o produtivo seria agir por “respeito ao dever”. Parece confuso, mas é fato. Essa perspectiva reflexiva e ética é capaz de nos mostrar vários equívocos da nossa sociedade.

Entendo que o “dever”, ao ser respeitado, faz com que o agente moral aceite, sobretudo, as normas. Em ambientes ricos de sociopatia, isso ajuda. Talvez, o receio de ser punido consiga frear uma minoria, mas a maioria poderá continuar sem os princípios éticos para o respeito dos valores morais. Em termos morais, pouco adiantará essas buscas de positivação de normas. Se não trabalharmos os valores éticos, eles não serão incorporados e, por conseguinte, não haverá respeito pelas verdadeiras e corretas escolhas éticas. Isso é importante na construção moral de uma sociedade, todavia não ocorre a devida valorização dessa análise. O que assistimos reiteradamente é uma tentativa tosca de criar normas e positivá-las para tudo. Como se isso trouxesse, realmente, um pensar social e moral adequado. Aqui, encaixaremos um refletir jurídico e de origem alemã: “quanto mais leis, menos justiça”. Posso, humildemente, propor uma pequena modificação – “quanto mais normas positivadas, mais distantes estaremos da moral correta”.

O mais importante e salutar seria o “respeito ao dever”, ou seja, a introjeção do entendimento ético referente aos conflitos morais. Isso deveria acontecer desde o início da construção ética do ser. Para isso, a positivação das normas não se constitui instrumento efetivo e pode, inclusive, produzir núcleos rebeldes de propagação e perpetuação de valores morais inadequados. Quando “respeitamos o dever”, acabamos por internalizar o respeito à máxima dessa ação moral.

Por exemplo, vejamos o tema preconceito, o qual é bem atual na sociedade brasileira. Eis que cresce a positivação das nomenclaturas com o sufixo “fobia” numa clara demonstração de querer agir pelo “dever” às normas. De que adianta? Será que os defensores de tal entendimento não compreenderam que não haverá um agente público em toda esquina para coibir e denunciar a falha moral. A norma positivada determinará uma regra moral forçada – “você não deve ser preconceituoso”. No entanto, se não houver o devido “respeito a esse dever”, a máxima moral dessa ação (aceitação da igualdade entre as pessoas) não será aplicada pelo agente moral. Em outras palavras, não haverá moral correta, pois a máxima não foi incorporada nos seres executores das ações morais. O que teremos é um agir conforme o estabelecido no dever, mas que, no fundo, não afasta nem elimina o preconceito. Na verdade, poderemos produzir agrupamentos de “não respeitadores” do dever (preconceituosos em grupos) que se camuflam na falsa premissa de agir conforme o dever. Em palavras simples, teremos preconceituosos mesquinhos que se passam por liberais e defensores da diversidade.

Sei que parece confuso, contudo não se amplifica socialmente uma ação moral correta pela força da lei positivada. Pensar assim mostra fragilidade no entendimento dos processos humanos ou evidencia interesses sorrateiros e escondidos no discurso de “justiça”. Se quisermos uma sociedade com princípios éticos saudáveis e valores morais ricos, nós deveremos fazer por onde. É um caminho mais longo e mais árduo, todavia ele será duradouro e constante. O outro caminho da positivação é mais teatral e um tanto quanto nababesco. Enquanto agentes morais, nós deveremos escolher entre a formação da moral ou a teatralidade de dizer que criamos freios e chaves para moral. Nesse contexto, há de se ter um entendimento básico que foi refletido há muito tempo por Immanuel Kant – “o homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”. Se nós buscamos uma sociedade virtuosa, justa e com moral elevada, precisamos produzir isso desde os nossos berços.

 

Régis Eric Maia Barros