A última perícia de interdição da semana

Incapacidade

Hoje, sexta feira, ao final do meu último laudo pericial, eu refleti sobre a necessidade, pelo menos para mim, de escrever este relato. Portanto, aí vai.

Ser psiquiatra e perito não é uma tarefa fácil. O que mais machuca nesta ocupação é ter que olhar para alguém e concluir que ele é incapaz. Este mesmo alguém que, muitas vezes em outrora, era repleto de vivacidade, sonhos e possibilidades. Este mesmo alguém que, muitas vezes em outrora, trabalhava arduamente e amava intensamente. Este mesmo alguém que, muitas vezes em outrora, era um alicerce para seus pares e familiares. Agora, ele não é mais. Para aqueles que não apresentam patologias congênitas, genéticas ou ligadas à gestação/parto, os eventos da vida (acidentes, traumas e doenças) determinaram essa situação. Antes, tínhamos um ser pleno, agora, após os eventos, temos um ser dependente. Por vezes, o grau de dependência é tão presente que há uma incapacidade de entendimento sobre basicamente tudo que envolve a vida cível. Consequentemente, isto determina uma impossibilidade de abstração e de que ele seja capaz de expressar a própria vontade. Que palavras fortes! Acostumei a escutá-las, escrevê-las e verbalizá-las: “incapacidade”, “não entendimento”, “impossibilidade”, “falta de abstração”, “dependência” e “perda da capacidade de se expressar”.

Sou de carne e osso e tenho afetos borbulhantes. Então, olhar para qualquer pessoa definindo que ela é incapaz levará a importantes desgastes. Pelo menos para mim, este machucar é intenso, visto que, é impossível não se envolver. O ser humano fala não somente com a boca. Acho, inclusive, que as comunicações não verbais são mais comunicativas. Assim, mesmo que minha função pericial seja analisar a condição de saúde do interditando, não tem como não sentir a dor de todas essas comunicações.

Você entenderá melhor com os seguintes questionamentos reflexivos: o que eu devo fazer com o desânimo e desolação do filho (a) do interditando? O que eu devo fazer com a lágrima sincera do companheiro (a) do interditando? O que eu devo fazer com a situação econômica fragmentada da família após o evento de saúde em questão? O que eu devo fazer com a desorganização familiar conseqüente àquela situação? O que eu devo fazer com todos os sentimentos expressados de forma vivaz no contato com todos os envolvidos? O que eu devo fazer com o olhar, por vezes, sem vida, distante, desconfiado, amargurado, alheio e derrotado do interditando?

Tudo isto, eu absorvo. Não há como não absorver por mais que eu me cuide psicologicamente. Tais vivências penetram, rasgam e desorganizam se você não se cuidar. Assim, eu sempre me sinto, no final do dia de cada sexta feira. Ao finalizar meu último laudo pericial, eu filosofo sobre tudo isto que citei. Contudo, a minha missão é nobre e repleta de justiça, pois, com meu ato, os envolvidos poderão ter proteções e benefícios. Isto me mantém firme e forte para que, na segunda feira, tudo aconteça novamente. Enfim, concluo que o ato sistemático de periciar doentes neuropsiquiátricos é uma atividade que transcende a medicina por tocar no humanismo e na postura guerreira de fazer justiça.

Régis Barros