A Santa Inquisição no Congresso Nacional

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Não é novidade que o nosso Congresso Nacional é conservador, contudo certas construções provenientes de alguns parlamentares criam tanta repulsa que precisei, novamente, escrever. Os apelidos das bancadas são charmosos por si só: “ruralista”, “da bala” e “evangélica”. Vejam e sintam os nomes! Cada vez mais, são esses elementos que dão as cartas e que propõem, defendem e aprovam idéias ultraconservadoras para a nossa sociedade.

Lembrei-me do livro antológico de Umberto Eco (O Nome da Rosa) que também foi transformado em um fantástico filme. Nele, a Santa Inquisição julgou, tendenciosamente, acontecimentos e mortes em um convento. Portanto, o Grão-Inquisidor Bernardo Gui julgava e condenava à morte todos aqueles que ele percebesse como “perigosos”. Através da dominação e do poder da igreja, muitos sucumbiam. Os julgados morriam sob a perversa ira do julgador e sem a possibilidade de se defender dos crimes que, geralmente, não haviam cometido. Eis que estávamos diante de um paradoxo – os que deveriam defender a fé e propagar a bondade eram os responsáveis por solapar ambas.

O nosso Congresso Nacional é algo semelhante. Interesses, acordos, engodos, exploração e perversão são palavras muito bem aplicadas a ele. Os parlamentares, de fato, não condenam os perseguidos à fogueira concreta como no período das bruxas. Todavia, há muitas fogueiras simbólicas e metafóricas, onde a sociedade e muitos de nós somos queimados. Para confirmar isso, basta buscar os projetos de leis e outras normatizações encaminhadas por esses trastes. Nessa semana, por exemplo, foi protocolado o PDC (Projeto de Decreto Legislativo) 395/2016, que visa suspender o Decreto nº 8.727, de 28 de abril de 2016 autorizado pela Presidente Dilma Rousseff. O referido PDC anula o direito ao uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal direta, autárquica e fundacional.

Olhem a barbaridade e a crueldade inquisitória dos responsáveis por tal ato o qual, pelo conservadorismo em tela no Congresso Nacional, tem tudo para ser aprovado. O julgamento mesquinho de um nome ligado ao sexo. A falta de respeito ao humano. O preconceito desmascarado pelo diferente. Age-se por vingança e punição. Não se acolhe as minorias, mas sim as atropelam. Para ganhar o que? Talvez, o ganho seja o gozo da imposição e os interesses por detrás de tudo. Tal qual a Inquisição, que queimava bruxas em fogueiras, o nosso legislativo atual funciona. Eles queimam as minorias. Isso é somente uma degustação inicial do que estará por vir. Uma sociedade que se autofagocitou com um verbete falacioso de defesa da democracia e do fim da corrupção. Essa mesma sociedade será a responsável por tempos duros, inflexíveis e corruptos.

O nome dos travestis é só um começo da nova era. Se for proibido até o nome, imaginem do que eles serão capazes de fazer. Os tempos serão árduos e, infelizmente, não será possível comemorá-los com belas camisas da Nike nas ruas. Que nós possamos manter os nossos sonhos e desejos, visto que, poderão, até, tirá-los de nós!

Régis Eric Maia Barros