A partir de quando começa a vida?

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Esta é uma discussão bioética com vários olhares. Uma diversidade de respostas apareceria se eu ousasse fazer esta pergunta a todos que quiserem ler este artigo. Os filósofos, os teólogos, os físicos, os médicos, os juristas, os ateus e os crentes descreveriam suas teses e, talvez, não conseguiriam convencer seus interlocutores. Mesmo que os argumentos fossem profundos e a oratória da defesa fosse de retórica brilhante, os outros não se sentiriam preenchidos.

Portanto, a “vida” já tem um complicador na sua origem – a definição do seu começo. As opiniões discordantes, geralmente, vão aparecendo e sendo defendidas como um tipo de resposta opositora ao ato de morrer/matar. Ou seja, sempre que a vida é tirada e limada, inclusive nas fases celulares e embrionárias, as correntes de pensamento constroem suas defesas. Neste contexto, nós perceberemos teses éticas e morais que apóiam ou condenam o ato de “tirar a vida”. Assim, os que são favoráveis e os que são contrários ao aborto vão caminhando. Assim, os que defendem ou os que abominam a eutanásia vão se colocando. Nesta dualidade, temos uma busca de definição de “vida” pautada na “morte”. Nesta dialética entre Eros e Tânatos, a vida tenta ser definida.

Contudo, não considero producente definir, filosoficamente, a vida usando como referencial a morte. Penso que deveríamos pensar na vida “em vida”. Logo, para mim, a vida passa a existir e a acontecer quando nos percebemos capazes e merecedores do viver. Deixem-me ser mais claro. A vida só pulsa quando marcamos o nosso posicionamento para ela. Em suma, sempre que estamos diante do viver, precisamos mostrar a nós mesmos o nosso papel de nos gostar. Esta marcação só poderá se materializar de uma única forma – priorizando-se. É inevitável que o ato de se priorizar vinculará a necessidade de se gostar e de se valorizar. Somente assim, estaremos vivos em todas as dimensões teóricas e filosóficas, independente do valor usado na análise. A vida acontece quando o ser se sente vivaz e busca absorver para si tudo que lhe fornece conforto psicológico. De maneira distributiva, vida é conforto, conforto é prioriza-se, então, vida é priorizar-se. Sem isto, mesmo com bilhões de células vivas, seremos um organismo morto. Conseqüentemente, não é difícil de concluir que neste mundo atual habita incontáveis “mortos-vivos”. Sim, eles estão por aí e aos montes. Eles “vivem” sem “vida”, simplesmente, por que nunca se priorizaram. Portanto, sob esta análise filosófica, tais “mortos-vivos” poderão morrer sem terem tido um status de ser “vivo”. Quantos “mortos-vivos” você conhece? Seria você um desses “mortos-vivos”?

Penso e defendo que a maior questão a ser estudada por todos estes teóricos deveria ser o fato de tentar fazer o ser vivo ter uma existência, de fato, “viva”. Isso seria mais rico, promissor e revelador do que ficar teorizando sobre a partir de quanto existe vida.

Desse modo, se você se percebe um morto em vida ou um vivo sem vida, pergunte-se, por quê? Será que você se prioriza? Será que você entende que, sem isto, será coadjuvante da sua jornada? Será que é possível existir vida na sua vida? São perguntas complexas e que necessitam de um filosofar interno para respondê-las. No entanto, acho que vale a pena tentar, pois, respondendo o título do artigo, eu digo: a vida começa quando você entende que você mesmo vale à pena. Então, não seja um “morto-vivo”.

 

Régis Eric Maia Barros