A maiêutica socrática e a paixão política no Brasil

maiêutica

Durante o “Século de Péricles, o mundo grego iniciou um apogeu cultural sem igual. E neste contexto, a filosofia se afirmou como ferramenta de crescimento e de diferenciação frente a tudo. Eis que surgiu Sócrates e mesmo sem ter deixado obras escritas, ele influenciou sobremaneira o pensamento e o conhecimento do mundo. Portanto, ele influenciou o meu e o seu pensar, o meu e o seu conhecer. Não é a toa que ele representou um divisor de águas nesta nova corrente do conhecimento – antes de Sócrates, os “Pré-Socráticos”.

O que Sócrates trouxe de especial? Dentre as várias reflexões e teses sobre os humanos e sobre a virtude ética, destacou-se o seu método de questionamento reflexivo (a maiêutica). Para ele, o diálogo e o debate discursivo, com questionamentos constantes entre os interlocutores, levariam a verdade e a essência das coisas. Usando a razão, nós poderíamos, sem os relativismos das experiências e opiniões pessoais, alcançar a verdade. Para isto ser alcançado, subtende-se que o método socrático não acolhe aquele ser humano que se percebe como o dono da verdade e o entendedor de tudo. Para atuar sob a égide socrática na busca da verdade, você não pode, usando uma linguagem coloquial, se sentir a “última coca cola gelada do mundo”. O questionamento gradativo, neste parto de idéias, é trazido em seqüência até você se dar conta de que não sabe de tudo que julga saber. Em outras palavras, o diálogo precisa ocorrer e você vai entendendo que a humildade reveladora da sua ignorância será o caminho para o saber e para a verdade. Sócrates percebia que a tentativa de convencimento imposta pelo outro, independente do assunto ser verdadeiro ou não, significaria mais uma disputa de retórica para vencer um debate. Este instrumento bem característico da nossa política e dos nossos eleitores afasta a verdade.

Pois bem, se a maiêutica foi um divisor de águas para o conhecimento filosófico, ela morre neste modelo de política apaixonado. A nossa realidade evidencia uma quantidade cada vez maior de apaixonados cegos que são incapazes de dialogar com o outro e de escutar uma opinião contraditória, pois, ao escutá-la, borbulha um desejo de desqualificar e de sobrepor o pensar do outro. É quase uma tentativa de doutrinação e de convencimento forçado. O que se busca não é a verdade, mas sim vencer o adversário num confronto erístico. Com isto, vão aparecendo rótulos, ironias, ataques, desrespeitos e desdéns. Tais posturas não somam nada e, pelo contrário, enfraquecem horrores. Assim, estamos caminhando quando pensamos em política, que se ressalte surgiu de mãos dadas com a democracia e a filosofia. Ou seja, o meu candidato é o “melhor”, enquanto o seu é o “pior”. Constrói-se um maniqueísmo descabido, mesmo que os dois candidatos não sejam lá representantes virtuosos da ética. Em tempos de mídias sociais, isto tem uma conseqüência em progressão geométrica. Em nestas plataformas, os ataques bidirecionais ganham volume trazendo, como conseqüência, fins de amizades e de relações. Se Sócrates estivesse presente no debate, talvez, até questionasse o real valor dado àquele candidato que você defende a ferro e fogo. Quem sabe ele usaria questionamentos até mais amplos e menos específicos, tais como: de onde surge a corrupção? Por que no Brasil a corrupção é endêmica? Eles são mais diferentes do que iguais? Qual o nosso papel nesta escolha e neste confronto?

Se Sócrates fosse nosso contemporâneo e inventasse de escrever algo sobre política nas mídias sociais, ele, certamente, seria metralhado e rotulado de A e anti-B ou de B e Anti-A. Sua maiêutica não prosperaria, pois nossa realidade está repleta de pessoas proprietárias do saber e da verdade.