A ideologia sobrepõe à ética médica?

ku Klux Klan

Atualmente, eu ando meio reticente para escrever sobre assuntos políticos que estão em voga na imprensa. O momento é triste, visto que, há um barril de pólvoras em explosão cujos gatilhos são as paixões. No entanto, uma notícia me chamou a atenção e, conseqüentemente, eu não poderia deixar a minha inquieta mente angustiada por não colocar no papel o meu refletir.

 

Então, o que me chamou a atenção? A notícia de uma quebra da relação médico-paciente, promovida pelo próprio médico, em face de uma ideologia político-partidária da mãe do paciente (criança). Para avaliar tal questão, evitarei me prender somente ao fato, pois, se assim o fizer, eu poderei ser, erroneamente, julgado como tendencioso. Desse modo, o questionamento ético disparador para a reflexão será: qual a função da medicina e do médico?

 

Pois bem, se por aí eu começo, não poderia deixar, novamente, de citar Immanuel Kant e a sua perspectiva deontológica sobre a ética e a moral. Inclusive, ressalto que, em face disso, somos regulados eticamente nos nossos códigos de conduta. Contudo, tais códigos, apesar de nos regularem, não são capazes de evitar expressões do nosso ser. Nessas brechas, vão surgindo manifestações sobre a nossa forma de ver o mundo, inclusive ideologicamente. Por isso, o agir virtuoso deve extrapolar a positivação dos códigos. Como proposto por Kant, devemos agir pelo respeito ao dever e não pela mera perspectiva do dever. Em outras palavras, nossos atos devem ser virtuosos em essência e o nosso agir não deve acontecer pelo mero temor da norma. A pergunta provocativa do segundo parágrafo vincula, novamente, Kant nessa reflexão, pois a máxima do imperativo categórico do médico é, dentre outros, o ato nobre do cuidar. Deveremos, enquanto médicos, agir de modo que a máxima do nosso ato seja uma lei universal, mesmo que ela não esteja positivada. Portanto, o cuidar é soberano a tudo. Ele está acima de tudo. Ele por si só basta. Sem isso, a medicina não existe em sua tese metafísica e ontológica. Esse cuidar deve ultrapassar quaisquer barreiras ideológicas, mesmo que nós, médicos, vejamos o mundo de forma diametralmente diferente daquele que iremos prestar o cuidado. Essa é a máxima que deve ser introjetada por todos da medicina, pois, se assim não prosperar, mataremos a arte médica.

 

O cuidado deve ser ofertado a todos independente do credo, cor, ideologia política, time do coração, cor da camisa e do voto nas últimas eleições. Por fim, finalizo afirmando que a medicina é uma ciência e uma arte soberana. Ela é alimentada, diariamente, pela magia da bondade e pela riqueza da ética. Isso tudo a fez grandiosa. Nós, médicos e protagonistas dela, é que deveremos mantê-la forte.

 

Régis Eric Maia Barros

 

* foto histórica que evidencia uma equipe de saúde negra atuando num atendimento emergencial em um membro da Ku Klux Klan