A estrada

esmola na estrada

 

Algumas imagens ficam guardadas na mente e vívidas nas lembranças para o todo e o sempre. Isso acontece com todos e não somente comigo. Uma delas se reavivou a pouco no meu pensar. Vou compartilhar. Na década de 1990, não existia a mínima possibilidade para minha família realizar viagens aéreas. Era muito oneroso e somente pessoas com o nível financeiro diferenciado poderiam fazê-las. Como esse não era o meu caso, restava-me, como opção, a via terrestre e, assim, eu viajei algumas vezes para visitar meus parentes maternos em Montes Claros no norte de Minas Gerais. Uma viagem longa, cansativa e desgastante, mas o que mais me marcou nelas foi uma cena que refletia a miséria de um povo esquecido por todos. Enfim, quando estávamos atravessando o estado da Bahia pela BR 116, aconteceu a imagem que descrevi acima e que, ainda, pulsa em mim. Eis que, ao passar lentamente por um trecho de estrada esburacada, uma legião de crianças maltrapilhas, sujas e descalças correram, conjuntamente, em direção aos carros que passavam. Todas estendiam a mão num ato humilhante de pedir e recebiam, sem questionar, qualquer coisa que era dada. Portanto, aceitavam moedas, restos de comidas e quaisquer agrados. Em um dado momento, uma criança, com idade aproximada de 7 anos, aproveitou que o nosso carro tinha parado antes de uma cratera no asfalto e se aproximou. Ela veio em direção ao meu vidro e encostou uma das suas mãos nele. Nesse momento, eu percebi que ela tinha outra criança menor no colo. Não deu tempo para ela me abordar, pois o carro, vagarosamente, desviou do buraco e prosseguiu. Eu ainda me lembro de forma dolorida e dolorosa daquele olhar. Um olhar distante e cansado. Um olhar desprovido de esperança. Um olhar perdido. Um olhar humilhado em essência e dignidade. Um olhar “não infantil” de uma criança. Vez por outra, eu me lembro desse olhar e daquela criança com outra criança no colo. Vez por outra, eu acordo de um sonho onde pego na sua mão. Será que elas estão vivas? Será que elas tombaram frente à miséria da época? Não sei responder, mas torço que elas estejam bem! Por isso, eu me incomodo muito com aqueles que falam de meritocracia numa sociedade, historicamente, desigual onde uns têm muito e muitos têm pouco. Por isso, é doloroso perceber que alguns costumam chamar os beneficiários de programas sociais de “vagabundos”. Acredito que esses, que costumam alcunhar os outros de “vagabundos”, não suportariam poucos dias de miséria. Eles pediriam arrego e não dariam conta. Certamente, muitos dos leitores desse artigo, também, me apelidarão de “socialista” e “comunista”. Já estou acostumado e, por isso ser tão comum, não me causa nenhum mal estar. Em meio às “pontes para o futuro”, veremos quais muros serão criados nessa trajetória. Em meio a um discurso cada vez mais não social, os “méritos” serão utilizados. Conseqüentemente, como bem dito pelo Mangue Beat de Chico Science & Nação Zumbi, repetiremos o refrão: “a cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe e o debaixo desce”.

 

Régis Eric Maia Barros