A divina dádiva de ser psiquiatra

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Hoje, atendi no consultório no turno da manhã e confesso que trabalhei com o coração pesado, pois meu filhinho de 5 meses (Benjamin) estava bem gripado e tinha dúvidas sobre algum diagnóstico de bronquiolite e/ou pneumonia. Eu tinha que atender, pois já havia desmarcado 2 dias no final da última semana em face da gripe que acometeu o filho mais velho (Leozinho) e que complicou com uma sinusite. O Leozinho já estava bem e, naquele momento, não me preocupava tanto como o Benjamin. Consegui uma consulta no pediatra no período da tarde e, então, decidi encarar o consultório pela manhã.

O Consultório estava lotado e não sei de onde tirei energia para tocá-lo. A preocupação e a noite mal dormida pesaram muito. O esforço foi sobrenatural, mas, ao final, percebi que fiz um bom trabalho. Eis que o último paciente era um caso novo que havia sido remarcado em face das desmarcações da última semana.

Este atendimento foi um afago na minha alma e um beijo no meu coração. O paciente era um senhor alto, simpático, educado e culto.

Resumindo sua história

Ele tinha um quadro ansioso reativo a um grave problema de saúde que quase tirou a sua vida – uma grave pancreatite aguda. Devido a esta patologia, ele ficou por mais de um mês internado numa UTI na cidade de Brasília e quase faleceu em decorrência de complicações da própria insuficiência pancreática além de problemas infecciosos e vasculares.

Destaco o seu relato e a sua mensagem sobre a vida.

“Está numa UTI é uma situação sui generis, pois, geralmente, você é admitido em estado de confusão. Assim, aconteceu comigo. Eu adentrei lá e me recordo pouco deste começo, O que vem na minha mente, ao tentar lembrar, são as vozes soltas, as luzes fortes e os barulhos estridentes das sirenes e buzinas dos aparelhos. Você não tem muita consciência das coisas. Pelo menos, eu não tinha. Portanto, se eu morresse neste momento, talvez, nem soubesse que morri. Embora não seja espírita, penso que, se existe espírito, qualquer UTI deve está cheia de espíritos, pois se morre, sem saber que morreu. Mas, para alguns foi diferente e a vida acaba se abrindo novamente. Isto aconteceu também comigo. Depois de alguns dias e não sei quantos, eu fui retomando a lucidez. Consegui entender onde estava e com quem eu estava lutando – com a morte. Nesta hora, a solidão te machuca, pois, mesmo que você esteja arrodeado de pessoas (equipe de saúde e outros pacientes moribundos), você se sente sozinho. Você deseja chorar diversas vezes, mas talvez as medicações te entorpecem e você seca as lágrimas. Você lembra dos seus amados e de como eles são, de fato, queridos e amorosamente amados. Como eles são seus verdadeiros amores. Você tem vontade de apertá-los e não os soltar nunca mais. Você, mesmo que seja ateu e agnóstico, pensa em Deus e pede uma segunda chance. Você quer sair e amar. Você quer beijar. Você quer dançar. Você quer um bocado de coisa. No meio destes pensamentos, você nota um corre corre e percebe que a equipe está sobre um paciente. Mesmo sem ser da área de saúde, você nota que algo ruim aconteceu ou está prestes a acontecer. Alguns conseguem retornar, mas outros, infelizmente, não resistiram a este evento. Ao ficar lúcido, nas infinitas semanas que estive lá, eu presenciei a partida de um senhor no leito a minha direita e de uma jovem a minha esquerda. Perto da minha alta, eu soube por uma enfermeira que eu também quase parti uma vez e conseguiram me manter vivo. Já perto da minha alta, eu fui pela primeira vez levantado pela fisioterapeuta que me sugeriu fazer as atividades em pé. Eu, na minha inocência, questionei a capacidade dela de me apoiar, pois eu era um homenzarrão e ela era bem baixinha. Ela, amorosamente, disse que eu poderia confiar nela e eu confiei. Eis que acontece algo que nunca esquecerei até, de fato, partir desta vida. Depois de várias semanas de internação naquela UTI, quando fiquei em pé pela primeira vez, a equipe técnica daquele turno parou e me aplaudiu. Fui abraçado com amor e chorei como se fosse uma criança que deixou seu picolé cair no chão. O médico chefe da equipe caminhou em minha direção e perguntou o que eu queria fazer naquele momento sublime. Eu respondi: quero escovar meus dentes e me sentir vivo. Acho que eles não esperavam isso e, num passa de mágica, conseguiram um creme dental e uma escova nova. Lentamente, caminhei até o banheiro com a fisioterapeuta e, ao olhar no espelho, entendi por que ela conseguia me apoiar frente a minha provocativa magreza. Hoje, da mesma forma que desejei nada mirabolante ou material – escovar o dente – aproveito as pequenas e simples coisas da vida, pois a vida é isto”

Ressalto que ele autorizou este relato.

Terminou a consulta e eu fui levar meu filhinho ao médico.

Léo e Ben estão bem!