Nesses últimos dias, uma imagem não consegue sair da minha mente. Certamente, muitos que me lerão aqui, também, estão com essa imagem latejando no pensar. A imagem de uma criança morta numa praia turca. Ela deitada de bruços no encontro do mar com a terra. Local que, geralmente, traz a magia da felicidade com famílias correndo junto dos seus filhos e aproveitando a natureza divina. Nesse caso, não. Talvez, essa imagem entrará para o rol de imagens da história da humanidade que provam o nosso caminhar errado, tortuoso e maldoso.
Ela desnuda a responsabilidade do humano enquanto espécie “superior”. Possivelmente, os pais e os familiares daquela criança indefesa também morreram naquela travessia. Todos movidos pelo sonho digno e coerente de encontrar dias melhores. Infelizmente, eles não encontraram tais desejados dias. O mundo e os países que lutam para bloquear a chegada desses náufragos os chamam de “refugiados” ou “imigrantes” ou sei lá de mais o que. Na verdade, temos humanos em busca de uma vida melhor e mais digna. Temos humanos lutando para ofertar algo melhor para seus amados e seus pequenos.
Será que isso seria encontrado em terras distantes localizadas do outro lado do mar? Eu não sei responder a essa pergunta. Contudo, mesmo sem conhecê-los pessoalmente, posso concluir que a fome, a guerra, o abandono, a perseguição, o esquecimento e a miséria dominavam seus lares e sua terra natal. Então, o que eles estão fazendo seria o que eu e você faríamos para proteger àqueles que amamos. Seríamos também “refugiados”.
Somos criadores e criaturas de todo este asco que nós, humanos, produzimos em todos os cantos do mundo. Muitas crianças tombam, muitos idosos sucumbem, muitas mulheres são agredidas e muitos humanos deixam de existir. Isto vem acontecendo todos os dias. Isto é real. Isto é um fato concreto.
A criança síria é a prova de como nós somos ou estamos sendo indiferentes a tudo. Ele (a) poderia ser meu filho (a). Ele (a) poderia ser seu filho (a). Eu e você fazemos parte disso. Paremos de nos esquivar da nossa responsabilidade. A promissória está em nossas mãos e, mais ainda, em nossa mente e em nosso coração. Há uma célebre reflexão no Talmude que afirma o seguinte: “quem salva uma vida salva o mundo inteiro”. Quanta dor em ter que trazer um contrapondo reflexivo e interrogativo para essa imagem e situação – “quem deixa de salvar a vida de uma criança…?”. Cada um complete a reflexão da maneira que achar melhor. Pode, inclusive, achar bobagem e nem responder ou até deletar. No entanto, saibamos de uma coisa – várias crianças não estão conseguindo chegar nessas “sonhadas terras distantes”.
Os botes estão virando…
Os refugiados se afogando…
As crianças morrendo…
O mundo fechando os olhos…
A criança da foto morreu na beira da praia. Quem sabe, em sonho, ela imaginou brincadeiras, sol, gritaria e outras crianças correndo com ela atrás de uma bola ou de uma pipa. Quem sabe ela está em paz, pois esse mundo e essa raça humana não foram capazes de ofertar isso a ela.
As crises, a fome, a guerra, o descaso e a maldade são criações coletivas e integradas. Guardemos a imagem dessa criança para que não esqueçamos o nosso papel nessas questões do mundo. Precisamos melhorar o mundo e, também, nos melhorar. Essa imagem nos cobra isso. Para mim não foi fácil escrever este artigo. A imagem da criança já estava fixada na minha mente e acabei por vê-la e revê-la por diversas vezes. Então, resta-me, depois de tudo que escrevi, citar Gandhi que assim nos alertou: “não é preciso entrar para a história para fazer um mundo melhor”.
*Nessa postagem, eu preferi adicionar essa foto dos irmãos sírios Aylan (esq) e Gailan (dir), que faleceram na travessia para a Europa, num outro momento feliz e alegre.
**Aylan é a criança que foi fotografada na praia.
Régis Eric Maia Barros
